quarta-feira, 25 de março de 2015

Ritalina, a droga legal que ameaça o futuro




Com efeito comparável ao da cocaína, droga é receitada a crianças questionadoras e livres. Professora afirma: “podemos abortar projetos de mundo diferentes”
Por Roberto Amado, no DCM
É uma situação comum. A criança dá trabalho, questiona muito, viaja nas suas fantasias, se desliga da realidade. Os pais se incomodam e levam ao médico, um psiquiatra talvez.  Ele não hesita: o diagnóstico é déficit de atenção (ou Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH) e indica ritalina para a criança.
O medicamento é uma bomba. Da família das anfetaminas, a ritalina, ou metilfenidato, tem o mesmo mecanismo de qualquer estimulante, inclusive a cocaína, aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. A criança “sossega”: pára de viajar, de questionar e tem o comportamento zombie like, como a própria medicina define. Ou seja, vira zumbi — um robozinho sem emoções. É um alívio para os pais, claro, e também para os médicos. Por esse motivo a droga tem sido indicada indiscriminadamente nos consultórios da vida. A ponto de o Brasil ser o segundo país que mais consome ritalina no mundo, só perdendo para os EUA.
A situação é tão grave que inspirou a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a fazer uma declaração bombástica: “A gente corre o risco de fazer um genocídio do futuro”, disse ela em entrevista ao  Portal Unicamp. “Quem está sendo medicado são as crianças questionadoras, que não se submetem facilmente às regras, e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de mil  anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias. Estamos dificultando, senão impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos diferentes. E isso é terrível”, diz ela.
O fato, no entanto, é que o uso da ritalina reflete muito mais um problema cultural e social do que médico. A vida contemporânea, que envolve pais e mães num turbilhão de exigências profissionais, sociais e financeiras, não deixa espaço para a livre manifestação das crianças. Elas viram um problema até que cresçam. É preciso colocá-las na escola logo no primeiro ano de vida, preencher seus horários com “atividades”, diminuir ao máximo o tempo ocioso, e compensar de alguma forma a lacuna provocada pela ausência de espaços sociais e públicos. Já não há mais a rua para a criança conviver e exercer sua “criancice.
E se nada disso funcionar, a solução é enfiar ritalina goela abaixo. “Isso não quer dizer que a família seja culpada. É preciso orientá-la a lidar com essa criança. Fala-se muito que, se a criança não for tratada, vai se tornar uma dependente química ou delinquente. Nenhum dado permite dizer isso. Então não tem comprovação de que funciona. Ao contrário: não funciona. E o que está acontecendo é que o diagnóstico de TDAH está sendo feito em uma porcentagem muito grande de crianças, de forma indiscriminada”, diz a médica.
Mas os problemas não param por aí. A ritalina foi retirada do mercado recentemente, num movimento de especulação comum, normalmente atribuído ao interesse por aumentar o preço da medicação. E como é uma droga química que provoca dependência, as consequências foram dramáticas. “As famílias ficaram muito preocupadas e entraram em pânico, com medo de que os filhos ficassem sem esse fornecimento”, diz a médica. “Se a criança já desenvolveu dependência química, ela pode enfrentar a crise de abstinência. Também pode apresentar surtos de insônia, sonolência, piora na atenção e na cognição, surtos psicóticos, alucinações e correm o risco de cometer até o suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration (FDA)”.
Enquanto isso, a ritalina também entra no mercado dos jovens e das baladas. A medicação inibe o apetite e, portanto, promove emagrecimento. Além disso, oferece o efeito “estou podendo” — ou seja, dá a sensação de raciocínio rápido, capacidade de fazer várias atividades ao mesmo tempo, muito animação e estímulo sexual — ou, pelo menos, a impressão disso. “Não há ressaca ou qualquer efeito no dia seguinte e nem é preciso beber para ficar loucaça”, diz uma usuária da droga nas suas incursões noturnas às baladas de São Paulo. “Eu tomo logo umas duas e saio causando, beijando todo mundo, dançando o tempo todo, curtindo mesmo”, diz ela.

Pesquisa da USP aponta: Ritalina não melhora cognição

A doutoranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, Camila Tarif Ferreira Folquitto, defendeu em 2009, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), uma dissertação de mestrado sobre suas pesquisas a respeito da afetividade e cognição, fazendo um recorte em dois grupos de alunos diagnosticados com TDAH. Um que utilizava o medicamento e outro que não usava. Descobriu  que o uso do Metilfenitado/Ritalina não ajuda no processo de cognição, responsável pela aprendizagem.

De acordo com as pesquisas dela, do ponto de vista cognitivo, existem diferenças importantes no desenvolvimento de crianças com TDAH quando comparadas com crianças sem qualquer diagnóstico e que a teoria de Piaget acerca do desenvolvimento psicológico, do processo de transição do estágio pré-operatório para o estágio operatório concreto de desenvolvimento, é um subsídio teórico importante para a compreensão deste transtorno, em especial a construção operatória da noção de tempo.

A hipótese geral trabalhada pela pesquisadora foi a de que crianças com TDAH apresentariam déficits no desenvolvimento de noções operatórias, como a conservação, reversibilidade e apreensão temporal. De acordo com ela, foram entrevistadas 62 crianças, com idades entre 6 a 12 anos, subdividas em dois grupos: uma amostra clínica de crianças diagnosticadas com TDAH e uma amostra de crianças sem diagnóstico. A amostra clínica foi também dividida entre crianças que faziam uso do Metilfenidato/Ritalina e de crianças não medicadas. O intuito da pesquisa foi observar se a medicação exerceria alguma influência no desempenho das crianças em provas piagetianas.

Os resultados da pesquisa demonstraram haver diferença estatisticamente significativa entre o desempenho das crianças dos diferentes grupos. Crianças com TDAH apresentaram uma tendência a terem suas respostas classificadas em níveis inferiores ao esperado, quando comparadas ao grupo de controle, que é  aquele composto por crianças sem o diagnóstico.

Porém, em relação ao grupo de alunos que utilizou o Metilfenidato/Ritalina, a pesquisadora descobriu não haver diferença significativa entre os grupos, ou seja, o remédio não ajuda no processo de cognição. Apesar  da pesquisadora citar ser importante no tratamento, na realidade o Metilfenidato/Ritalina não demonstrou ser suficiente para potencializar o desenvolvimento cognitivo de crianças com TDAH, superando os déficits observados. De acordo com ela, esses achados corroboram a hipótese de déficit na aquisição das noções operatórias em crianças com TDAH e concluiu ser necessária novas reflexões a respeito do TDAH, considerando alternativas de intervenções que considerem os déficits observados, ultrapassando o tratamento medicamentoso.

Quer conhecer melhor os estudos da pesquisadora? Clique aqui e leia a dissertação, que está disponível online.