domingo, 22 de julho de 2012

Ao invés de reverem a educação, usam Ritalina




Estamos tendo uma precarização da qualidade do ensino oferecido para alunos na fase de alfabetização. Se a criança não está atenta na escola, se não está escrevendo corretamente como deveria, isso é um problema educacional, pedagógico. Quer dizer que não estamos conseguindo dar conta de uma alfabetização adequada. Mas de repente, há uma epidemia de crianças que não prestam atenção? Não faz sentido. Nasceu uma geração que não presta atenção? A geração anterior prestava e a atual não presta? - indaga Marilene, que também é membro da diretoria da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional.

- Consideram que o fato de o aluno não aprender não tem a ver com a questão pedagógica, mas é um problema dele, como se fosse algo orgânico que tivesse dificultando a aprendizagem. A mudança de comportamento estaria sendo feita pela medicação, e não por uma pedagogia adequada - completa.

Já para a professora titular do Departamento de Pediatria da Unicamp, Maria Aparecida Moysés, há uma tentativa de "abafamento dos questionamentos".

- Ritalina e Concerta (também tem o Metilfenidato como príncipio ativo) estão sendo prescritos para crianças que incomodam. Existe uma pressão da indústria farmacêutica, mas creio que há também o ideário de um abafamento de questionamentos, de normalização das pessoas. Todos homogêneos. Pode ser que não seja esse o objetivo, mas é o que acaba acontecendo, porque toda criança que questiona tem TDAH. Você medica e aborta o questionamento. Estamos cada vez mais usando remédio para tudo. Não há mais gente triste. Há gente deprimida. A tristeza incomoda. Te mandam tomar um Prozac. A vida está sendo retirada de cena, porque é irregular, caótica, tem altos e baixos, diferenças. O que está acontecendo é que quem não se submete é quimicamente assujeitado.

Quadro nacional

De acordo com a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene Proença, os conselhos regionais da categoria irão promover ações locais para "levantar a problemática em seus estados".

- Até novembro, esperamos ter um quadro nacional - afirma.

Dados do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos mostram que de 2000 a 2008, a venda de caixas de metilfenidato saltou de 71 mil para 1.147.000, um aumento de e 1.615%. Os números não consideram receitas de medicamentos manipulados ou comprados pelo poder público.

A comercialização da Ritalina é regulada pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Embora o medicamento - classificado no anexo da Portaria 344/98, na lista das substâncias psicotrópicas -, só possa ser adquirido com receita especial, é fácil consegui-lo clandestinamente. Uma breve busca pela internet revela que não são esporádicas as ofertas da droga.

Relatório do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Anvisa de 2009 - dado mais atualizado da entidade sobre o metilfenidato - destacou que há vários estudos e questionamentos quanto ao uso massivo e efeitos secundários da substância, "pois sua utilização já está ocorrendo entre empresários, estudantes, para emagrecimento e até em uso recreacional na forma triturada como pó ou diluído em água para ser injetado".

O relatório informa ainda que a maior preocupação em relação ao Cloridrato de Metilfenidato está, na verdade, relacionada ao seu "mau uso", e não à utilização da substância nos casos de TDAH. Mas pondera ao ressaltar que o medicamento não é indicado para todos os pacientes da doença. O documento acrescenta :

- Segundo estudo publicado em 2009, somente entre 2002 e 2006, a produção brasileira de metilfenidato cresceu 465 por cento. Sua vinculação ao diagnóstico de TDAH tem sido fator predominante de justificativa para tal crescimento. Mas os discursos que circulam em torno do tema e legitimam seu uso também contribuem para o avanço nas vendas.

A psicoterapeuta Cacilda Amorim, do Instituto Paulista de Déficit de Atenção (IPDA), ressalta que as exigências do mercado de trabalho têm provocado aumento na procura por estimulantes cognitivos.

-Hoje, existe uma pressão muito grande para o desempenho de qualidade, principalmente em adultos, em situações de trabalho que não garantem as condições mínimas para que isso seja possível. Em qualquer área, a quantidade de coisas que se espera que a pessoa faça, aprenda, desenvolva. Se não desenvolver, ela se sente inadequada.

"zombie like"

Crítica implacável do traramento com Ritalina, a professora da Unicamp, Maria Aparecida Moysés afirma que a aparente calma promovida pela droga em crianças não é efeito terapêutico, mas "sinal de toxicidade".

- Tem o mesmo mecanismo de ação das anfetaminas e a cocaína. Ele é um derivado de anfetamina. É essa a complicação. Ele age aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. A dopamina é um neurotransmissor associado às sensações de prazer.Não é todo mundo que fica mais concentrado. Em torno de 40, 50% ficam mais focado, que é o efeito da anfetamina e da cocaína. Mas foca a atenção no que passar na frente, não necessariamente nos estudos.

Segundo ela, as reações adversas acontecem em todo os órgãos.

- No sistema nervoso central, você tem psicose, alucinação, suicídio, que não é desprezível, cefáleia, sonolência, insônia. Um dos mais importante é um efeito que, em farmacologia, é chamado de "zombie like". A pessoa fica contida em si mesma. Passa a agir como se estivesse amarrada. No sistema cardiovascular, por exemplo, os efeitos são hipertensão, arritmia, taquicardia, parada cardíaca. É uma droga perigosa. Eu não daria para um filho meu





Jornal do Brasil



Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade

O Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, composto por mais de 40 entidades e profissionais das áreas de Educação, Saúde, Assistência Social dentre outras, realizou no ano de 2011 uma pesquisa a respeito da compra e dispensação do medicamento Cloridrato de Metilfenidato. Para tanto, os Conselhos Municipais de Saúde dos 645 municípios do Estado de São Paulo foram consultados, por meio de um questionário enviado por correio. O levantamento, de natureza quantitativa, objetivou identificar, em termos absolutos, a compra e dispensação do medicamento no período entre 2005 e o primeiro semestre de 2011. As respostas foram devolvidas por carta-resposta e os dados relativos à quantidade de compra e dispensação do medicamento Cloridrato de Metilfenidato foram organizados em forma de gráficos. Dos 645 municípios que receberam o questionário, 257 responderam, e destes, 154 Municípios compraram o medicamento no período. Conforme seguem os gráficos:






Os dados coletados mostram a tendência crescente da compra e dispensação do medicamento Cloridrato de Metilfenidato pelos órgãos públicos nos últimos cinco anos.





Este fato é visto com muita preocupação por um conjunto significativo de professores e de estudos, no Brasil e exterior, de Universidades e Centros de Pesquisa renomados, que têm questionado a prescrição de remédios controlados, e com fortes efeitos colaterais, para crianças e adolescentes que apresentam dificuldades na escolarização, seja de comportamento, seja de aprendizagem. O Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade mediante tais dados realizará em 2012 diversas ações no âmbito do Ministério da Educação, Saúde, Direitos Humanos e demais instâncias sociais serão mobilizadas para o enfrentamento desta questão.

Fonte
Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade - Em defesa da diversidade!



Controvérsias sobre excessos em diagnóstico e medicamentos no TDAH

A polêmica começa com os discussões sobre a existência "real" do TDAH. Um exemplo recente foi encontrado em um evento do Conselho Federal de Psicologia, questionando a existência do TDAH e Dislexia, criticando também a medicalização de dificuldades de aprendizagem. Ou seja, se não se aceita a existência de um diagnóstico, menos ainda se aceitará seu tratamento com medicação psicotrópica.

Uma análise mais ampla tem suas vantagens – por um lado, evita simplificações; por outro, facilita tomar um posicionamento mais consistente, especialmente importante caso se esteja diretamente envolvido, como por exemplo um pai que teve seu filho diagnosticado.


acerca de suas causas. Neste momento, entramos em uma área de controvérsias muito antigas, cuja essência trata da determinação (causalidade) do comportamento. Em resumo, especula-se sobre o que seria mais importante: a Natureza (cérebro, genética) ou Ambiente (experiências de vida, estimulação). Lá pela década de 60, defesas ardorosas de uma ou de outra posição eram muito comuns – eventualmente, chegando ao ponto da agressão intelectual, associando as posições mais ligadas ao determinismo biológico como "direitistas" ou politicamente incorretas.

Hoje, radicalismos de qualquer lado são sinais de ingenuidade ou desconhecimento intelectual e científico – já se aceita com facilidade que a manifestação do substrato orgânico (inclusive a ativação / manifestação da carga genética) dependa diretamente da experiência e contato com o ambiente.

A explicação mais comum para o aumento tão significativo na prescrição de medicação para TDAH, dada pela classe médica, é o maior conhecimento acerca do transtorno e, portanto, o maior número de diagnósticos. Esta afirmação, por sua vez, leva a duas outras considerações.

Primeiro, o maior número de diagnósticos é sim devido à maior divulgação e maior procura – o papel da Internet e do Google é inquestionável. Também é inegável o aumento dos "diagnósticos" feitos por professores, pais ou não-especialistas, bem como de auto-diagósticos em adultos. Assim, a forte identificação com os sintomas do TDAH deve ser encarada sob uma perspectiva crítica.

Qualquer análise cultural, mesmo bastante simplificada, mostrará claramente a valorização do desempenho, foco e produtividade, exigências de competências multi-tarefas, simultaneamente a pressões constantes, sobrecarga de informação e excesso de estimulação.

É fundamental questionar a natureza e legitimidade destas exigências e expectativas. No caso de crianças, pouco se problematiza o início da alfabetização em muitos casos antes dos 6 anos de idade, escolas bilíngües para os pequenos ou agendas com tantos compromissos que se assemelham às de grandes executivos; tão pouco é levado em conta o fato das crianças estarem expostas cada vez mais cedo e de forma muito intensa a estimulação que contrasta fortemente com o que é oferecido pelas escolas. No caso de adultos, é comum a expectativa de fazer sempre mais em menor tempo, enquanto se tenta desesperadamente dar conta das mensagens que não param de chegar ou navegar em vários sites simultaneamente para estar sempre por dentro de tudo.

Segundo, é provável que esta ênfase no tratamento medicamentoso esteja também diretamente relacionada a uma concepção fortemente organicista, que entenda o substrato orgânico como causa única ou ao menos principal e, por decorrência, encare o tratamento medicamentoso como central e indispensável. Some-se a esta concepção a expectativa por uma saída que seja rápida e eficaz – neste contexto, nada cai melhor do que uma pílula

Portanto, apenas quando se aceita a concepção de um transtorno que tenha um componente orgânico e, ao mesmo tempo, seja fortemente influenciado pela experiência, estimulação, ambiente ao redor, expectativas e necessidades de desempenho, será possível entender mais claramente o papel da medicação no tratamento do TDAH. E também questionar os processos de diagnóstico diferencial (que quer dizer, discriminar o que é TDAH e o que não é) bem como a necessidade de tratamento integrado, direcionado tanto ao substrato orgânico quanto aos componentes ambientais, necessidades de treinamento e ajustes em valores ou expectativas.


O aumento do consumo de Ritalina na rede municipal de saúde de São Paulo não é pontual. O Brasil é o segundo país que mais utiliza o Cloridrato de Metilfenidato (princípio ativo do medicamento), perdendo apenas para os Estados Unidos, destaca a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene Proença. A substância é adotada no tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Não são poucas as hipóteses levantadas para explicar esse crescimento. Na avaliação de Marilene Proença, a Ritalina, apelidada pelos críticos de "droga da obediência", tem sido adotada como subterfúgio para escamotear falhas no sistema educacional.

 

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