sexta-feira, 30 de março de 2012

Quase 75% das crianças e dos adolescentes brasileiros que tomam drogas para deficit de atenção não tiveram diagnóstico correto. Seu fiho é um deles?

O dado é de um estudo de psiquiatras e neurologistas da USP, Unicamp, do Instituto Glia de pesquisa em neurociência e do Albert Einstein College of Medicine (EUA), que será apresentado no 3º Congresso Mundial de TDAH (transtorno de deficit de atenção e hiperatividade), no fim do mês, na Alemanha.


A pesquisa colheu dados de 5.961 jovens, de 4 a 18 anos, em 16 Estados do Brasil e no Distrito Federal.
Os autores aplicaram questionários em pais e professores para identificar a ocorrência do transtorno, tendo como base os critérios do DSM-4 (manual americano de diagnóstico em psiquiatria).
As informações foram comparadas aos relatos dos pais sobre o diagnóstico que seus filhos receberam de outros profissionais, antes do período das entrevistas.
Só 23,7% das 459 crianças que haviam sido diagnosticadas com deficit de atenção realmente tinham o transtorno, segundo os critérios do manual. Das 128 que tomavam remédios para tratá-lo, só 27,3% tinham o problema, segundo os pesquisadores.

"Isso mostra que há muitos médicos prescrevendo o remédio, mas que não conhecem bem o problema", diz o neurologista Marco Antônio Arruda, coautor do estudo e diretor do Instituto Glia.

O remédio usado para tratar o transtorno é o metilfenidato, princípio ativo da Ritalina e do Concerta. A substância é da família das anfetaminas e age sobre o sistema nervoso central, aumentando a capacidade de concentração.

Entre os efeitos colaterais causados pela droga estão taquicardia, perda do apetite e o desenvolvimento de quadro bipolar ou psicótico em pessoas com predisposição.













PATRÍCIA BRITTO

FOLHA.COM

domingo, 18 de março de 2012

Médica ataca indústria por estimular uso de remédios psiquiátricos para pacientes infantis

"Estamos dando veneno para as crianįas"

Desde 2004, Angell, 72, é conhecida como a mulher que tirou o sossego da indústria farmacęutica e de muitos médicos e pesquisadores que trabalham na área. Primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe no bicentenário "New England Journal of Medicine", a médica Marcia Angell já foi considerada pela revista "Time" uma das 25 personalidades mais influentes nos EUA.Ela publicou em 2004 a explosiva obra "A Verdade sobre os Laboratórios Farmacęuticos", que desnuda o mercado de medicamentos.

Usando da experięncia de duas décadas de trabalho no "NEJM", ela conta, por exemplo, como os laboratórios se afastaram de sua missão original de descobrir e fabricar remédios úteis para se transformar em gigantescas máquinas de marketing.Professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Harvard, Angell é autora de vários artigos e livros que questionam a ética na prática e na pesquisa clínica.

Tornou-se também uma crítica ferrenha do sistema de saúde americano. Tem se dedicado a escrever artigos alertando sobre o excesso de prescriįão de drogas antipsicóticas, especialmente entre crianįas. "Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade", diz ela.A seguir, trechos da entrevista exclusiva que ela concedeu ā Folha:Folha - Houve alguma mudanįa no cenário dos conflitos de interesses entre médicos e indústria farmacęutica desde a publicaįão do seu livro?Marcia Angell - Não. Os fatos continuam os mesmos. Talvez as pessoas estejam mais atentas.

Há mais discussão, reportagens, livros, artigos acadęmicos sobre esses conflitos, então eles parecem estar mais sutis do que eram no passado. Mas é claro que as companhias farmacęuticas sempre encontram uma forma de manter o lucro.F - E os pacientes? Algumas pesquisas mostram que eles parecem não se importar muito com essas questões.M - Em geral, os pacientes confiam cegamente nos seus médicos. Eles não querem ver esses problemas.

Além disso, as pessoas sempre acreditam que os medicamentos sejam muito mais eficazes do que eles realmente são. Até porque somente estudos positivos são projetados e publicados. A mídia, os pacientes e mesmo muitos médicos acreditam no que esses estudos publicam. As pessoas creem que as drogas sejam mágicas. Para todas as doenįas, para toda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz: "Vocę precisa perder peso, fazer mais exercícios". E a pessoa diz: "Eu prefiro o remédio". E os médicos andam tão ocupados, as consultas são tão rápidas, que ele faz a prescriįão.

Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando ele faz isso. Pacientes tęm de ser educados para o fato de que não existem soluįões mágicas para os seus problemas. Drogas tęm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de base.F - A sra. tem escrito artigos sobre o excesso de prescriįões na área da psiquiatria. Essa seria hoje uma das especialidades médicas mais conflituosas?M - Penso que sim.

Há hoje um evidente abuso na prescriįão de drogas psiquiátricas, especialmente para crianįas. Crianįas que tęm problemas de comportamento ou problemas familiares vão até o médico e saem de lá com diagnóstico de transtorno bipolar, ou TDAH (transtorno de déficit de atenįão e hiperatividade). E é claro que tem o dedo da indústria estimulando os médicos a fazer mais e mais diagnósticos. Ās vezes, a crianįa chega a usar quatro, seis drogas diferentes porque uma dá muitos efeitos colaterais, a outra não reduz os sintomas e outras as deixam ainda mais doentes. Drogas antipsicóticas estão claramente associadas ao diabetes e ā síndrome metabólica.

Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade. Pessoas que acham que isso não é assim tão terrível sempre argumentam comigo que essas crianįas, em geral, chegaram a um estado tão ruim que algo precisa ser feito. Mas isso não é argumento.F - Hoje, fala-se muito em medicina personalizada. Na oncologia, há uma aposta de que drogas desenvolvidas para grupos específicos de pacientes serão uma arma eficaz no combate ao câncer. A sra. acredita nessa possibilidade?M - Para mim, isso é só propaganda. Não faz o menor sentido uma companhia farmacęutica desenvolver uma droga para um pequeno número de pessoas. E que sistema de saúde aguentaria pagar preįos tão altos?F - Algumas escolas de medicina nos EUA comeįaram a cortar subsídios da indústria farmacęutica e de equipamentos na educaįão médica continuada.

No Brasil, essa dependęncia é ainda muito forte. É preciso eliminar por completo esse vínculo ou há uma chance de conciliar esses interesses?M - Deve ser completamente eliminado. Professores pagam para fazer cursos de educaįão continuada, advogados fazem o mesmo, por que os médicos não podem? A diferenįa é que vocę não precisa ir a um resort no Havaí para ter educaįão médica continuada. É preciso pensar em modelos de capacitaįão mais modestos. E, com a internet, todos os países, mesmo os pobres ou em desenvolvimento, podem fazer isso. A educaįão médica não pode ser financiada por quem tem interesse comercial no conteúdo dessa educaįão.

Fonte: Cláudia Collucci Washington/ folha de SP/saude
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