sábado, 20 de outubro de 2012

http://youtu.be/uE0mysIHvvg

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Geração Ritalina

Falta de atenção e foco virou doença. O nome? Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. A suposta solução? O remédio tarja preta, do qual o Brasil é o segundo maior consumidor do mundo. Psiquiatras culpam o cérebro; outros, a sociedade. Nosso repórter ouviu os dois lados e passou uma semana sob o efeito da “droga da obediência”
“Bom, é o seguinte: você tem sinais de déficit de atenção e de ansiedade. Vou te prescrever um medicamento”, sentenciou o psiquiatra. O gravador escondido no bolso marcava exatos 23 min de consulta – tempo suficiente para ele me diagnosticar com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) e escorregar pela mesa uma receita para três caixas de Ritalina.

Não precisei mentir nem exagerar nada. Em resumo, relatei que vez ou outra tenho dificuldade para me concentrar em coisas que não me interessam, que prazos podem ser um problema e que faz tempo que não leio um livro até o fim. O que foi? Se identificou com alguma coisa? Não se preocupe. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Associação Americana de Psiquiatria, cerca de 4% dos adultos e de 5% a 8 % de crianças e adolescentes de todo o mundo sofrem de TDAH, “uma síndrome caracterizada por desatenção, hiperatividade e impulsividade”, atigamente chamada apenas de DDA (déficit de atenção).

Em uma sala de aula com 40 crianças, por exemplo, estima-se que pelo menos dois sejam portadores. E cada vez mais o destino delas é o mesmo que o meu: o consultório de um psiquiatra. Grande parte da psiquiatria vê o TDAH como uma doença neurobiológica, causada por um desequilíbrio químico no cérebro, tal qual a depressão. O diagnóstico é feito a partir de entrevistas, isto é, não há exames que detectem a doença. Seus “defensores”, por assim dizer, afirmam existir mais de 10 mil estudos relatando seus sintomas, os primeiros datando dos anos 1700. Todavia, isso são hipóteses, teorias.

Muitos profissionais, especialmente de outros ramos da medicina, questionam a causa, o diagnóstico, o tratamento com remédios e a utilização do transtorno como justificativa para desempenhos fracos na escola.

Alguns, mais radicais, duvidam até da própria existência do TDAH. Muitos profissionais questionam a causa, o diagnóstico, o tratamento com remédios e a utilização do transtorno como justificativa para desempenhos fracos na escola Mesmo assim, resolvi seguir as recomendações do meu médico.

Durante uma semana, vivi sob o efeito do remédio tarja preta (leia o diário no fim do texto), apelidado por seus críticos de “droga da obediência”. Nem a Novartis, laboratório fabricante, nem a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (anvisa) revelam os números de vendas. Mas previsões do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (Idum) dizem que, em tese, nos últimos 11 anos, elas galoparam cerca de 3.200%. O número coloca o Brasil como o segundo maior consumidor de Ritalina do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos.

A pesquisa não contempla o mercado negro, que, ao que parece, é bem movimentado. Bastou meia hora no Google para encontrar diversos anúncios de gente oferecendo o remédio “off label” (sem receita). Por telefone, acordei de encontrar um vendedor em uma estação de metrô na manhã do dia seguinte. Chegando lá, um motoboy me entregou em mãos um envelope pardo e pediu que eu conferisse o conteúdo: Ritalina 10 mg, 20 comprimidos, lacrada e dentro da validade. Valor: R$ 80. Nas farmácias, sai em média por um quarto do preço. Relativamente barata, fácil de conseguir e teoricamente segura, a “Rita” vem sendo usada também por estudantes e baladeiros que querem bombar a energia e espantar o sono.

 A moda teria surgido em clubs e colleges norte-americanos. O efeito de cada drágea de cloridrato de metilfenidato, nome verdadeiro da Ritalina, dura em média quatro horas. Assim como outras “inas” – a cocaína, a cafeína e as anfetaminas –, ela é considerada um psicoestimulante. Seu mecanismo de ação ainda não foi completamente elucidado. Mas acredita-se que ela aumenta a produção e o reaproveitamento da dopamina e da noradrenalina, neurotransmissores associados às sensações de prazer, excitação e ao estado de alerta do sistema nervoso.

A bula alerta para a dependência física ou psíquica, além de elencar uma série de reações adversas como nervosismo, dificuldade em adormecer, diminuição no apetite, dor de cabeça, palpitações, boca seca e alterações cutâneas. No FDA, órgão governamental dos Estados Unidos responsável por controlar alimentos e medicamentos, há 186 registros de óbito citando o uso prolongado do metilfenidato. Um dos nomes é o do jovem Matthew Smith – falecido aos 14 anos, metade deles fazendo uso da substância. Seus pais fundaram o Ritalindeath.com com a missão de “prover informações sobre a verdade oculta do TDAH e das drogas usadas em seu tratamento”.

Laboratórios é que bancam O site da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) é o primeiro que aparece quando se faz uma busca virtual sobre TDAH. Nele há o cadastro de médicos do país todo especialistas no assunto, onde encontrei o contato do psiquiatra que me atendeu. A associação, fundada pelo doutor Paulo Mattos e um paciente em 1999, também realiza eventos para divulgar a causa e oferece cursos de treinamento para professores.

A entidade é patrocinada pelos laboratórios que fabricam, segundo o site, “os remédios de primeira linha para o tratamento de TDAH”. São eles: Novartis, produtora da Ritalina e da Ritalina LA (mesma substância, mas com dosagens mais altas); Janssen Cilag, do sugestivo Concerta; e Shire, do recém-lançado Vevanse. “Ninguém recebe salário, exceto a secretária. Por isso precisamos de incentivos privados. Não há conflito de interesse, desde que, claro, você apresente a situação para as outras pessoas”, explica o doutor Paulo Mattos.

No ano passado, a Novartis e a ABDA promoveram em parceria o concurso “Atenção Professor”, com o objetivo de “ajudar os educadores a conhecer e lidar melhor com o TDAH”. Ganhavam as três escolas que apresentassem as melhores propostas de inclusão de portadores na sala de aula. Como prêmio, R$ 7 mil em dinheiro e uma garrafa de champanhe. Recentemente, um projeto de lei institucionalizando o diagnóstico e o tratamento de TDAH nas escolas foi aprovado no Senado, restando apenas três comissões para que a aprovação se repita na câmara dos deputados. “Nenhum medicamento no mundo daria conta da complexidade que é o processo de atenção e aprendizado de uma criança” “Ciência não se discute”

 A psicóloga Iane Kestelman, atual presidente da ABDA, descobriu a organização quando seu filho, “sumariamente reprovado em todas as matérias na escola”, foi diagnosticado com o transtorno. “Nossa vida mudou, e para melhor. Meu filho iniciou o tratamento e passou na melhor faculdade de economia do país. Ele toma remédio há 12 anos e não virou nenhum robô, como dizem por aí”, ela conta, a voz embargada do outro lado do telefone. Orgulhosa do caso de sucesso na família, ela relativiza a epidemia do TDAH e o boom nas vendas da Ritalina: “É um bom sinal. Significa que estamos cumprindo nosso papel, que mais gente está conhecendo a doença e o tratamento adequado”.

De acordo com uma pesquisa recente realizada por USP, Unicamp e Albert Einstein College of Medicine quase 75% dos jovens brasileiros que utilizam Ritalina ou similares não foram diagnosticados corretamente. Iane e doutor Paulo Mattos, porém, furtam-se a discutir uma possível fragilidade e/ou subjetividade no diagnóstico da doença. “Achamos isso ofensivo, inclusive. Ciência não se discute. Ela não está preocupada se você concorda com ela ou não”, diz a psicóloga. “Isso é um pseudodebate. Quem duvida da existência do TDAH nunca publicou nenhum artigo sobre o assunto, não tem qualificação.

Você não vai chamar um pajé para discutir com um neurocientista”, engrossa o coro seu colega. “TDAH não existe” Marilene Proença não é um pajé. É psicóloga, integrante do Instituto de Psicologia da USP, e opõe-se à razão de ser da ABDA. “TDAH não existe. O que existe são crianças diferentes, com formas de aprender diferentes. Algumas são mais focadas, outras mais dispersas. Não existe um padrão de aprendizado”, ela postula.

 Para Marilene, a solução não cabe em um comprimido branco de pouco mais de 1 cm de diâmetro: “Nenhum medicamento no mundo daria conta da complexidade que é o processo de atenção e aprendizado de uma criança. Ele envolve afetividade, desejo, representações que a criança cria”. Para os pais aflitos, que não sabem o que fazer com seu filhos travessos, ela acena um caminho, antes que eles decidam passar a bola para um psiquiatra: “A primeira coisa é ouvir a sua criança. O que ela tem a dizer sobre a escola? Os amigos a tratam bem? O professor escuta ela? Mudar para uma escola que entenda melhor a criança também deve ser levado em consideração”.

O problema não estaria na cabeça das pessoas, mas na sociedade. É o que acredita Maria Aparecida Moyses, pediatra e professora da Unicamp: “Se tem tanta gente deprimida ou desatenta, temos que entender que elas estão sendo produzidas pelo modo que a gente vive. Nunca se tomou tanto remédio e nunca houve tantas pessoas doentes. Isso não pode estar certo. O que eles fazem é uma biologia de um corpo morto, de um cérebro sem vida, sem afeto, isolado do meio em que vive”.

Atendendo em um centro de saúde público em Campinas, ela diz já ter presenciado casos de jovens viciados no metilfenidato, que clamavam pela sua dose diária durante as férias, quando normalmente a posologia é suspendida. Pergunto então se ela daria Ritalina para um filho seu. “Sou contra”, ela retruca. “Ficar parado é, na verdade, uma reação adversa dos estimulantes. Focar atenção é sinal de toxicidade, não é efeito terapêutico.” Mas então o que você daria para ele? “Ritalina nem pensar. Daria... Rita Lee.” Doente, eu?

Pela primeira vez na vida, nosso repórter visitou um psiquiatra. A razão: averiguar o surto nos diagnósticos de TDAH. Para sua surpresa, deixou o consultório com uma receita para três caixas de Ritalina 10 mg. Na dúvida, resolveu acatar o doutor – mesmo que apenas por uma semana

Quarta-feira
Tomo o primeiro comprimido às 10h30. Meia hora depois, sinto um anestesiamento sutil, como se uma película me separasse do entorno. Enquanto preparo a quentinha que levarei para almoçar, meu pai fala sobre uma passeata pró-Amazônia. Tenho que parar mais de uma vez para entendê-lo, como se não conseguisse fazer duas coisas ao mesmo tempo. Sinto uma pressão na cabeça. Assim que ponho os pés na rua, percebo que esqueci a quentinha. A caminhada do ponto de ônibus até a redação, coisa de 5 min, me dá uma sede surreal. Ninguém nota nada de diferente em mim.

Quinta-feira
Acordei várias vezes durante a noite, algo incomum para mim. Sonhei que estava na escola e que entregava uma prova de matemática em branco. Desperto com uma espinha na testa e uma enxaqueca fortíssima, que dura até a hora em que tomo o comprimido do dia. Não percebo nenhum upgrade na atenção, mas meus editores se espantam quando entrego um texto de duas páginas ainda no meio do dia – nenhum recorde, mas sem dúvida um episódio inédito na minha carreira. Relendo- o, porém, não gosto tanto do resultado. Não lembro da última vez que bocejei, mesmo sem tomar um gole de café há dois dias.

Sexta-feira
Hoje o negócio bateu de verdade. Sinto o maxilar travado. Estou ansioso. E a pressão na cabeça voltou. Tomar banho, esperar o elevador, pegar o ônibus e demais atos corriqueiros parecem mais enfadonhos que o normal. Estranhamente, fico doido para chegar à redação e trabalhar. Meu chefe diz que estou com uma cara estranha. De fato sinto os músculos da face meio paralisados, as expressões limitadas. Fico abespinhado sempre que algo ou alguém me interrompe. Sinto-me mais concentrado, mas percebo que só consigo focar uma coisa por vez.

Sábado e domingo
Como o doutor disse que o medicamento só deveria ser ingerido quando a atenção fosse exigida e que ele não combina muito com os prazeres mundanos da vida, resolvo suspender o uso pelos dois dias.

Segunda-feira
Estou introspectivo. Sinto os mesmos efeitos colaterais de antes – pressão na cabeça, ansiedade, irritação –, porém mais fortes e acompanhados de uma sudorese nas mãos. O pensamento embaralhou, passo o dia todo escrevendo e deletando na mesma proporção. No fim do expediente, um saldo mísero de um parágrafo. Não sinto fome na hora do almoço – outro episódio inédito. Me forço a comer uma torta de frango, que deixo pela metade. Fico preocupado.

Terça-feira
Por conta do rendimento pífio de ontem, estou atrasado para escrever esta matéria. Dado o revertério do dia anterior, decido não arriscar e ficar clean por hoje. Doeu, mas consegui parir o texto.

Concluo que, no meu caso, nada melhor do que um prazo e um editor à espreita para acertar o foco e fazer o que deve ser feito.

Efeito zumbi
As imagens que ilustram esta matéria são de autoria de Lu Cong (Cong Hua Lu), artista nascido em Xangai, na China, em 1978. Formado em biologia e artes pela Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, ele começou sua carreira como pintor sem quase nenhum treinamento formal anterior, o que lhe rendeu um estilo bem particular.

Críticos ressaltam seu olhar clínico, capaz de produzir imagens que oscilam entre a beleza e o terror. Nesta série, em que os limites entre fotografia e pintura são borrados, Lu Cong retrata seres humanos assépticos, ostentando olhares ao mesmo tempo vidrados e perdidos

 Texto por Millos Kaiser Ilustração Lu Cong

domingo, 22 de julho de 2012

Ao invés de reverem a educação, usam Ritalina




Estamos tendo uma precarização da qualidade do ensino oferecido para alunos na fase de alfabetização. Se a criança não está atenta na escola, se não está escrevendo corretamente como deveria, isso é um problema educacional, pedagógico. Quer dizer que não estamos conseguindo dar conta de uma alfabetização adequada. Mas de repente, há uma epidemia de crianças que não prestam atenção? Não faz sentido. Nasceu uma geração que não presta atenção? A geração anterior prestava e a atual não presta? - indaga Marilene, que também é membro da diretoria da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional.

- Consideram que o fato de o aluno não aprender não tem a ver com a questão pedagógica, mas é um problema dele, como se fosse algo orgânico que tivesse dificultando a aprendizagem. A mudança de comportamento estaria sendo feita pela medicação, e não por uma pedagogia adequada - completa.

Já para a professora titular do Departamento de Pediatria da Unicamp, Maria Aparecida Moysés, há uma tentativa de "abafamento dos questionamentos".

- Ritalina e Concerta (também tem o Metilfenidato como príncipio ativo) estão sendo prescritos para crianças que incomodam. Existe uma pressão da indústria farmacêutica, mas creio que há também o ideário de um abafamento de questionamentos, de normalização das pessoas. Todos homogêneos. Pode ser que não seja esse o objetivo, mas é o que acaba acontecendo, porque toda criança que questiona tem TDAH. Você medica e aborta o questionamento. Estamos cada vez mais usando remédio para tudo. Não há mais gente triste. Há gente deprimida. A tristeza incomoda. Te mandam tomar um Prozac. A vida está sendo retirada de cena, porque é irregular, caótica, tem altos e baixos, diferenças. O que está acontecendo é que quem não se submete é quimicamente assujeitado.

Quadro nacional

De acordo com a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene Proença, os conselhos regionais da categoria irão promover ações locais para "levantar a problemática em seus estados".

- Até novembro, esperamos ter um quadro nacional - afirma.

Dados do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos mostram que de 2000 a 2008, a venda de caixas de metilfenidato saltou de 71 mil para 1.147.000, um aumento de e 1.615%. Os números não consideram receitas de medicamentos manipulados ou comprados pelo poder público.

A comercialização da Ritalina é regulada pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Embora o medicamento - classificado no anexo da Portaria 344/98, na lista das substâncias psicotrópicas -, só possa ser adquirido com receita especial, é fácil consegui-lo clandestinamente. Uma breve busca pela internet revela que não são esporádicas as ofertas da droga.

Relatório do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Anvisa de 2009 - dado mais atualizado da entidade sobre o metilfenidato - destacou que há vários estudos e questionamentos quanto ao uso massivo e efeitos secundários da substância, "pois sua utilização já está ocorrendo entre empresários, estudantes, para emagrecimento e até em uso recreacional na forma triturada como pó ou diluído em água para ser injetado".

O relatório informa ainda que a maior preocupação em relação ao Cloridrato de Metilfenidato está, na verdade, relacionada ao seu "mau uso", e não à utilização da substância nos casos de TDAH. Mas pondera ao ressaltar que o medicamento não é indicado para todos os pacientes da doença. O documento acrescenta :

- Segundo estudo publicado em 2009, somente entre 2002 e 2006, a produção brasileira de metilfenidato cresceu 465 por cento. Sua vinculação ao diagnóstico de TDAH tem sido fator predominante de justificativa para tal crescimento. Mas os discursos que circulam em torno do tema e legitimam seu uso também contribuem para o avanço nas vendas.

A psicoterapeuta Cacilda Amorim, do Instituto Paulista de Déficit de Atenção (IPDA), ressalta que as exigências do mercado de trabalho têm provocado aumento na procura por estimulantes cognitivos.

-Hoje, existe uma pressão muito grande para o desempenho de qualidade, principalmente em adultos, em situações de trabalho que não garantem as condições mínimas para que isso seja possível. Em qualquer área, a quantidade de coisas que se espera que a pessoa faça, aprenda, desenvolva. Se não desenvolver, ela se sente inadequada.

"zombie like"

Crítica implacável do traramento com Ritalina, a professora da Unicamp, Maria Aparecida Moysés afirma que a aparente calma promovida pela droga em crianças não é efeito terapêutico, mas "sinal de toxicidade".

- Tem o mesmo mecanismo de ação das anfetaminas e a cocaína. Ele é um derivado de anfetamina. É essa a complicação. Ele age aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. A dopamina é um neurotransmissor associado às sensações de prazer.Não é todo mundo que fica mais concentrado. Em torno de 40, 50% ficam mais focado, que é o efeito da anfetamina e da cocaína. Mas foca a atenção no que passar na frente, não necessariamente nos estudos.

Segundo ela, as reações adversas acontecem em todo os órgãos.

- No sistema nervoso central, você tem psicose, alucinação, suicídio, que não é desprezível, cefáleia, sonolência, insônia. Um dos mais importante é um efeito que, em farmacologia, é chamado de "zombie like". A pessoa fica contida em si mesma. Passa a agir como se estivesse amarrada. No sistema cardiovascular, por exemplo, os efeitos são hipertensão, arritmia, taquicardia, parada cardíaca. É uma droga perigosa. Eu não daria para um filho meu





Jornal do Brasil



Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade

O Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, composto por mais de 40 entidades e profissionais das áreas de Educação, Saúde, Assistência Social dentre outras, realizou no ano de 2011 uma pesquisa a respeito da compra e dispensação do medicamento Cloridrato de Metilfenidato. Para tanto, os Conselhos Municipais de Saúde dos 645 municípios do Estado de São Paulo foram consultados, por meio de um questionário enviado por correio. O levantamento, de natureza quantitativa, objetivou identificar, em termos absolutos, a compra e dispensação do medicamento no período entre 2005 e o primeiro semestre de 2011. As respostas foram devolvidas por carta-resposta e os dados relativos à quantidade de compra e dispensação do medicamento Cloridrato de Metilfenidato foram organizados em forma de gráficos. Dos 645 municípios que receberam o questionário, 257 responderam, e destes, 154 Municípios compraram o medicamento no período. Conforme seguem os gráficos:






Os dados coletados mostram a tendência crescente da compra e dispensação do medicamento Cloridrato de Metilfenidato pelos órgãos públicos nos últimos cinco anos.





Este fato é visto com muita preocupação por um conjunto significativo de professores e de estudos, no Brasil e exterior, de Universidades e Centros de Pesquisa renomados, que têm questionado a prescrição de remédios controlados, e com fortes efeitos colaterais, para crianças e adolescentes que apresentam dificuldades na escolarização, seja de comportamento, seja de aprendizagem. O Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade mediante tais dados realizará em 2012 diversas ações no âmbito do Ministério da Educação, Saúde, Direitos Humanos e demais instâncias sociais serão mobilizadas para o enfrentamento desta questão.

Fonte
Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade - Em defesa da diversidade!



Controvérsias sobre excessos em diagnóstico e medicamentos no TDAH

A polêmica começa com os discussões sobre a existência "real" do TDAH. Um exemplo recente foi encontrado em um evento do Conselho Federal de Psicologia, questionando a existência do TDAH e Dislexia, criticando também a medicalização de dificuldades de aprendizagem. Ou seja, se não se aceita a existência de um diagnóstico, menos ainda se aceitará seu tratamento com medicação psicotrópica.

Uma análise mais ampla tem suas vantagens – por um lado, evita simplificações; por outro, facilita tomar um posicionamento mais consistente, especialmente importante caso se esteja diretamente envolvido, como por exemplo um pai que teve seu filho diagnosticado.


acerca de suas causas. Neste momento, entramos em uma área de controvérsias muito antigas, cuja essência trata da determinação (causalidade) do comportamento. Em resumo, especula-se sobre o que seria mais importante: a Natureza (cérebro, genética) ou Ambiente (experiências de vida, estimulação). Lá pela década de 60, defesas ardorosas de uma ou de outra posição eram muito comuns – eventualmente, chegando ao ponto da agressão intelectual, associando as posições mais ligadas ao determinismo biológico como "direitistas" ou politicamente incorretas.

Hoje, radicalismos de qualquer lado são sinais de ingenuidade ou desconhecimento intelectual e científico – já se aceita com facilidade que a manifestação do substrato orgânico (inclusive a ativação / manifestação da carga genética) dependa diretamente da experiência e contato com o ambiente.

A explicação mais comum para o aumento tão significativo na prescrição de medicação para TDAH, dada pela classe médica, é o maior conhecimento acerca do transtorno e, portanto, o maior número de diagnósticos. Esta afirmação, por sua vez, leva a duas outras considerações.

Primeiro, o maior número de diagnósticos é sim devido à maior divulgação e maior procura – o papel da Internet e do Google é inquestionável. Também é inegável o aumento dos "diagnósticos" feitos por professores, pais ou não-especialistas, bem como de auto-diagósticos em adultos. Assim, a forte identificação com os sintomas do TDAH deve ser encarada sob uma perspectiva crítica.

Qualquer análise cultural, mesmo bastante simplificada, mostrará claramente a valorização do desempenho, foco e produtividade, exigências de competências multi-tarefas, simultaneamente a pressões constantes, sobrecarga de informação e excesso de estimulação.

É fundamental questionar a natureza e legitimidade destas exigências e expectativas. No caso de crianças, pouco se problematiza o início da alfabetização em muitos casos antes dos 6 anos de idade, escolas bilíngües para os pequenos ou agendas com tantos compromissos que se assemelham às de grandes executivos; tão pouco é levado em conta o fato das crianças estarem expostas cada vez mais cedo e de forma muito intensa a estimulação que contrasta fortemente com o que é oferecido pelas escolas. No caso de adultos, é comum a expectativa de fazer sempre mais em menor tempo, enquanto se tenta desesperadamente dar conta das mensagens que não param de chegar ou navegar em vários sites simultaneamente para estar sempre por dentro de tudo.

Segundo, é provável que esta ênfase no tratamento medicamentoso esteja também diretamente relacionada a uma concepção fortemente organicista, que entenda o substrato orgânico como causa única ou ao menos principal e, por decorrência, encare o tratamento medicamentoso como central e indispensável. Some-se a esta concepção a expectativa por uma saída que seja rápida e eficaz – neste contexto, nada cai melhor do que uma pílula

Portanto, apenas quando se aceita a concepção de um transtorno que tenha um componente orgânico e, ao mesmo tempo, seja fortemente influenciado pela experiência, estimulação, ambiente ao redor, expectativas e necessidades de desempenho, será possível entender mais claramente o papel da medicação no tratamento do TDAH. E também questionar os processos de diagnóstico diferencial (que quer dizer, discriminar o que é TDAH e o que não é) bem como a necessidade de tratamento integrado, direcionado tanto ao substrato orgânico quanto aos componentes ambientais, necessidades de treinamento e ajustes em valores ou expectativas.


O aumento do consumo de Ritalina na rede municipal de saúde de São Paulo não é pontual. O Brasil é o segundo país que mais utiliza o Cloridrato de Metilfenidato (princípio ativo do medicamento), perdendo apenas para os Estados Unidos, destaca a representante do Conselho Federal de Psicologia, Marilene Proença. A substância é adotada no tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Não são poucas as hipóteses levantadas para explicar esse crescimento. Na avaliação de Marilene Proença, a Ritalina, apelidada pelos críticos de "droga da obediência", tem sido adotada como subterfúgio para escamotear falhas no sistema educacional.

 

Fonte





sexta-feira, 30 de março de 2012

Quase 75% das crianças e dos adolescentes brasileiros que tomam drogas para deficit de atenção não tiveram diagnóstico correto. Seu fiho é um deles?

O dado é de um estudo de psiquiatras e neurologistas da USP, Unicamp, do Instituto Glia de pesquisa em neurociência e do Albert Einstein College of Medicine (EUA), que será apresentado no 3º Congresso Mundial de TDAH (transtorno de deficit de atenção e hiperatividade), no fim do mês, na Alemanha.


A pesquisa colheu dados de 5.961 jovens, de 4 a 18 anos, em 16 Estados do Brasil e no Distrito Federal.
Os autores aplicaram questionários em pais e professores para identificar a ocorrência do transtorno, tendo como base os critérios do DSM-4 (manual americano de diagnóstico em psiquiatria).
As informações foram comparadas aos relatos dos pais sobre o diagnóstico que seus filhos receberam de outros profissionais, antes do período das entrevistas.
Só 23,7% das 459 crianças que haviam sido diagnosticadas com deficit de atenção realmente tinham o transtorno, segundo os critérios do manual. Das 128 que tomavam remédios para tratá-lo, só 27,3% tinham o problema, segundo os pesquisadores.

"Isso mostra que há muitos médicos prescrevendo o remédio, mas que não conhecem bem o problema", diz o neurologista Marco Antônio Arruda, coautor do estudo e diretor do Instituto Glia.

O remédio usado para tratar o transtorno é o metilfenidato, princípio ativo da Ritalina e do Concerta. A substância é da família das anfetaminas e age sobre o sistema nervoso central, aumentando a capacidade de concentração.

Entre os efeitos colaterais causados pela droga estão taquicardia, perda do apetite e o desenvolvimento de quadro bipolar ou psicótico em pessoas com predisposição.













PATRÍCIA BRITTO

FOLHA.COM

domingo, 18 de março de 2012

Médica ataca indústria por estimular uso de remédios psiquiátricos para pacientes infantis

"Estamos dando veneno para as crianįas"

Desde 2004, Angell, 72, é conhecida como a mulher que tirou o sossego da indústria farmacęutica e de muitos médicos e pesquisadores que trabalham na área. Primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe no bicentenário "New England Journal of Medicine", a médica Marcia Angell já foi considerada pela revista "Time" uma das 25 personalidades mais influentes nos EUA.Ela publicou em 2004 a explosiva obra "A Verdade sobre os Laboratórios Farmacęuticos", que desnuda o mercado de medicamentos.

Usando da experięncia de duas décadas de trabalho no "NEJM", ela conta, por exemplo, como os laboratórios se afastaram de sua missão original de descobrir e fabricar remédios úteis para se transformar em gigantescas máquinas de marketing.Professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Harvard, Angell é autora de vários artigos e livros que questionam a ética na prática e na pesquisa clínica.

Tornou-se também uma crítica ferrenha do sistema de saúde americano. Tem se dedicado a escrever artigos alertando sobre o excesso de prescriįão de drogas antipsicóticas, especialmente entre crianįas. "Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade", diz ela.A seguir, trechos da entrevista exclusiva que ela concedeu ā Folha:Folha - Houve alguma mudanįa no cenário dos conflitos de interesses entre médicos e indústria farmacęutica desde a publicaįão do seu livro?Marcia Angell - Não. Os fatos continuam os mesmos. Talvez as pessoas estejam mais atentas.

Há mais discussão, reportagens, livros, artigos acadęmicos sobre esses conflitos, então eles parecem estar mais sutis do que eram no passado. Mas é claro que as companhias farmacęuticas sempre encontram uma forma de manter o lucro.F - E os pacientes? Algumas pesquisas mostram que eles parecem não se importar muito com essas questões.M - Em geral, os pacientes confiam cegamente nos seus médicos. Eles não querem ver esses problemas.

Além disso, as pessoas sempre acreditam que os medicamentos sejam muito mais eficazes do que eles realmente são. Até porque somente estudos positivos são projetados e publicados. A mídia, os pacientes e mesmo muitos médicos acreditam no que esses estudos publicam. As pessoas creem que as drogas sejam mágicas. Para todas as doenįas, para toda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz: "Vocę precisa perder peso, fazer mais exercícios". E a pessoa diz: "Eu prefiro o remédio". E os médicos andam tão ocupados, as consultas são tão rápidas, que ele faz a prescriįão.

Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando ele faz isso. Pacientes tęm de ser educados para o fato de que não existem soluįões mágicas para os seus problemas. Drogas tęm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de base.F - A sra. tem escrito artigos sobre o excesso de prescriįões na área da psiquiatria. Essa seria hoje uma das especialidades médicas mais conflituosas?M - Penso que sim.

Há hoje um evidente abuso na prescriįão de drogas psiquiátricas, especialmente para crianįas. Crianįas que tęm problemas de comportamento ou problemas familiares vão até o médico e saem de lá com diagnóstico de transtorno bipolar, ou TDAH (transtorno de déficit de atenįão e hiperatividade). E é claro que tem o dedo da indústria estimulando os médicos a fazer mais e mais diagnósticos. Ās vezes, a crianįa chega a usar quatro, seis drogas diferentes porque uma dá muitos efeitos colaterais, a outra não reduz os sintomas e outras as deixam ainda mais doentes. Drogas antipsicóticas estão claramente associadas ao diabetes e ā síndrome metabólica.

Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade. Pessoas que acham que isso não é assim tão terrível sempre argumentam comigo que essas crianįas, em geral, chegaram a um estado tão ruim que algo precisa ser feito. Mas isso não é argumento.F - Hoje, fala-se muito em medicina personalizada. Na oncologia, há uma aposta de que drogas desenvolvidas para grupos específicos de pacientes serão uma arma eficaz no combate ao câncer. A sra. acredita nessa possibilidade?M - Para mim, isso é só propaganda. Não faz o menor sentido uma companhia farmacęutica desenvolver uma droga para um pequeno número de pessoas. E que sistema de saúde aguentaria pagar preįos tão altos?F - Algumas escolas de medicina nos EUA comeįaram a cortar subsídios da indústria farmacęutica e de equipamentos na educaįão médica continuada.

No Brasil, essa dependęncia é ainda muito forte. É preciso eliminar por completo esse vínculo ou há uma chance de conciliar esses interesses?M - Deve ser completamente eliminado. Professores pagam para fazer cursos de educaįão continuada, advogados fazem o mesmo, por que os médicos não podem? A diferenįa é que vocę não precisa ir a um resort no Havaí para ter educaįão médica continuada. É preciso pensar em modelos de capacitaįão mais modestos. E, com a internet, todos os países, mesmo os pobres ou em desenvolvimento, podem fazer isso. A educaįão médica não pode ser financiada por quem tem interesse comercial no conteúdo dessa educaįão.

Fonte: Cláudia Collucci Washington/ folha de SP/saude
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