domingo, 12 de dezembro de 2010

Premissas discutíveis: Há algo de errado com as bases biológicas da psiquiatria?

Quando Steve Hyman, presidente da NIMH (Instituto Norte-americano de Saúde Mental) foi à comissão de bioética do presidente Bush (Commission on Bioethics) defender o aumento meteórico das vendas de Ritalina e outros calmantes para as crianças, ele não evocou um único estudo que demonstrasse as bases biológicas do quadro designado como Desordem de Déficit de Atenção e Hiperatividade (DDAH), nem tampouco citou um único estudo que mostrasse a reais vantagens do uso de medicamentos como esse (a Ritalina) para as crianças. Ao invés disso ele apenas citou “as taxas de 50 % de concordância de esquizofrenia entre gêmeos idênticos”. Essa assertiva é utilizada para dizer que, como existe uma base biológica para a doença mental, no caso a esquizofrenia, todas as outras doenças também têm base biológica, excelente justificativa para o emprego de agentes químicos que modificam as funções mentais. Mas, evidentemente, é muito estranho que se utilize apenas esse argumento: se houvesse realmente bons indicadores biológicos que pudessem comprovar esse conceito de enfermidade eles necessariamente seriam apontados. Esse tipo de posicionamento faculta qualquer um a se perguntar se essa “pretensa” patologia tem, de fato, bases orgânicas.

A UTILIDADE DOS ESTUDOS COM GÊMEOS

Hoje em dia, mais do que nunca, os genes são responsabilizados por tudo que tem difícil explicação em medicina, mais ainda em psiquiatria, principalmente quando a simples presunção de “organicidade” justifique terapêuticas medicamentosas.

Mas têm ecoado no meio científico vários autores que resolveram reexaminar algumas “verdades” das ciências médicas. Principalmente quando essas verdades são obtidas por métodos estatísticos. A revisão nas estatísticas realizada pelo dr. Uffe Ravnskov pôs por terra toda a teoria de que a doença cardíaca seria ligada ao consumo de gordura saturada e as altas taxas de colesterol. Um outro autor, o psicólogo Jay Joseph, escreveu o livro: “The Gene Illusion” (A ilusão genética), onde examina em minúcias a pedra-fundamental da psiquiatria moderna, baseada em medicação: o estudo com gêmeos, que provariam que a esquizofrenia é uma doença genética. Segundo esse autor esses estudos constituem uma falácia! Seria um mito, uma mistura de inúmeros equívocos unidos para provar algo que precisava ser provado, alinhavado pelo uso tendencioso da matemática. Em um artigo da revista “The Human Nature Review”, em 2003, outro autor, Jonathan Leo, faz um exame da obra de J. Joseph, citando os aspectos mais preponderantes, e impressionando o leitor pela marcada fragilidade do conhecimento convencionalmente aceito que daria sustentação à premissa biológica da psiquiatria.

Joseph propôs esse tema: “Estudos com gêmeos em psiquiatria: ciência ou pseudo-ciência?”, na revista Psychiatry Quartery (primavera de 2002). Nesse artigo ele lembra do psiquiatra Abraham Myerson, que escreveu em 1925, sob a égide da influência do eugenismo, que os genes deveriam ser muito importantes, mesmo sem haver como provar sua real existência, pois todos conhecemos talentos hereditários, virtudes hereditárias, vícios hereditários etc. Nada além de preconceito.

Apesar de haver estudos que parecem, num primeiro olhar, oferecer provas de que há uma questão genética por detrás da esquizofrenia, quando esses dados são submetidos a exames mais qualificados, essas provas são dissolvidas.

Tradicionalmente, se compara a freqüência de gêmeos idênticos com gêmeos fraternos portadores de esquizofrenia. A esmagadora maioria dos livros texto de psiquiatria cita que o fato de haver uma concordância de 50% para gêmeos idênticos contra 15% entre os gêmeos fraternos como a prova irrefutável de que essa doença tem base genética, portanto causa biológica, sendo uma enfermidade similar, por exemplo, à hemofilia. Assim sendo, só mesmo estratégias químicas podem ser de utilidade. Se criou uma premissa em psiquiatria que justificaria tudo o que viria depois: a maciça abordagem medicamentosa sobre as manifestações psicológicas. (Porém muito do que veio ‘depois’ está sendo duramente criticada por inúmeros estudiosos em todo o mundo. (Talvez um pouco menos no Brasil)).

Joseph revisou TODOS os estudos com gêmeos apontados nos artigos e livros de psiquiatria. E no final de sua revisão não conseguiu mais, na melhor das hipóteses, do que eventuais 20% de concordância entre gêmeos idênticos. Ele ainda relata que alguns pesquisadores, de fato, não tinham encontrado taxas elevadas de concordância. Mas outros cientistas preocupados em salvar o mito “ajudavam” tais pesquisas a ficarem com taxas mais “aceitáveis” à regra geral, empregando fatores matemáticos de correção, geralmente injustificáveis. Algumas pesquisas que não se enquadrariam simplesmente seriam omitidas. Um desses estudos, que apresenta uma das maiores amostragens populacionais, não chega a 11% de concordância entre gêmeos idênticos e esquizofrenia.

As pesquisas com gêmeos, idênticos, mas que foram criados separadamente, apresentam grosseiros erros de execução, e não deveriam ser levados em consideração. Um deles parece ser obviamente manipulado.

Leo fala da interessante pesquisa mostrada na revista Science, sobre um alelo de genes ligados ao polimorfismo da 5 HTT (serotonina) presentes em algumas pessoas que poderiam predispor à depressão SE HOUVESSE EXPOSIÇÃO À UMA SÉRIE DE EVENTOS TRAUMATICOS. 86% de pacientes depressivos, submetidos a quatro fatos traumáticos em uma clínica teriam pelo menos uma cópia desse alelo. Porém 72% de pessoas que também tinham esse alelo, e que teriam sido submetidos a eventos traumáticos não teriam ficado deprimidos. Não parece que isso – possuir essa marca genética - torne mais fácil descobrir quem tem maior ou menor tendência de ficar depressivo.

A DOENÇA MENTAL E O MEIO AMBIENTE

Outra grande discussão de ambos os autores é sobre os efeitos do meio ambiente na saúde mental. Mesmo uma doença como a esclerose múltipla, que deve, efetivamente, possuir predicados genéticos, parece precisar de um ou vários estímulos (desconhecidos) ambientais para iniciar sua manifestação.

Embora a questão ambiental sempre seja apontada, efetivamente, têm sido promovidas poucas mudanças que realmente possam gerar benefícios para a saúde mental, principalmente para as crianças que levam o rótulo de hiperativas, visto que mesmo os autores, que são defensores da premissa biológica, costumam dizer que o aspecto ambiental é muito importante.

NÚMERO CRESCENTE

O número de doenças mentais tem se ampliado nos manuais de diagnóstico psiquiátrico mais do que qualquer outro grupo de doenças conhecidas. O primeiro guia de diagnóstico de doença mental (DSM I), de 1952, tinha 60 enfermidades. Passou por quatro revisões, até chegar ao DSM IV, com mais do que o quádruplo do número original. Praticamente qualquer comportamento humano se encontra nesse manual. Dessa forma é difícil não encontrar alguém com alguma enfermidade mental.

Isso pode ter relação com a origem eugênica da psiquiatria americana. Nos anos cinqüenta houve um grande encontro de interesses entre a Sociedade Eugênica Americana, (mais tarde Sociedade de Estudo de Biologia Social), e a Associação Americana de Psiquiatria. A catalogação de comportamento humano poderia ser um indicador bastante forte que daria o adequado suporte para a noção de que haveria indivíduos que melhor representariam a sociedade americana do que outros. Uma das formas pensadas em melhorar a população seria, por exemplo, castrando indivíduos esquizofrênicos ou que parecessem ser. Não é a toa que em pleno século XX, tratamentos psiquiátricos radicais nunca foram proibidos. A terapia com eletrochoque é um exemplo. Outro exemplo foi a do médico que fazia lobotomias de forma itinerante, pelo interior dos Estados Unidos, com um método bem barato: perfurar o crânio do “felizardo” paciente com um quebrador de gelo, introduzido acima do canal lacrimal, com o auxilio, naturalmente de um... martelo! Nada como zelar pela boa conduta das pessoas, fossem elas adultos dementes ou crianças teimosas...

O PROZAC É SEGURO?

Um detalhado estudo da história “oculta” da psiquiatria pode ser encontrada no extenso artigo “The Hidden Side of the Psychiatry” escrito por Gary Null, PhD. Esse artigo faz referência a um outro livro muito interessante: “Talking Back to Prozac: What Doctors Aren 't Telling You About Today 's Most Controversial Drug” (Voltando ao Prozac: Os que os médicos não lhe tem falado a respeito dessa controversa droga da atualidade), do médico Peter Breggin.

O Prozac, nome comercial da fluoxetina, segundo os relatos desse autor, não poderia ter sido liberado pelo FDA (órgão de fiscalização americano), pois os melhores resultados preliminares teriam sido alcançados quando a fluoxetina foi utilizada com um sedativo adicional. Além do mais os estudos foram feitos com amostras insuficientes de pacientes. De qualquer maneira o Prozac parece estar envolvido com um número muito significativo de problemas, desde a superestimulação, (excitação, ansiedade, insônia) e uma piora posterior do quadro depressivo.

Os problemas mais complicados passam pela questão dos distúrbios motores, que podem ir da acatisia (inquietude motora), sintoma psiquiátrico já bem conhecido em pacientes medicados com anti-psicóticos até um problema insolúvel como a DISTONIA E A DISCINECIA TARDIA. Esses efeitos co-laterais não são situações transitórias, mas sim cicatrizes neuro-funcionais, intratáveis. Esse problema é bem conhecido com o emprego dos remédios usados por esquizofrênicos, sendo que geralmente aparecem com vários anos de uso (usuários de haloperidol ou clorpromazina, por exemplo). Infelizmente somente agora estamos encontrando pacientes com um número de anos suficientemente longo de uso de fluoxetina, para encontrarmos esse irremediável problema.

O DESEQUILIBRIO QUÍMICO DO CÉREBRO

Gary Null também fala em seu artigo da questão biológica. Habitualmente os pacientes são advertidos (ou ameaçados?) sobre o desequilíbrio químico do cérebro para cederem ao uso de algum medicamento que ajude a sua mente e as suas emoções a funcionarem melhor.

O conceito de desequilíbrio químico foi primeiramente exposto ao público em 1963, na revista Life. Esse conceito foi desenvolvido a partir dos estudos que foram realizados sobre os efeitos das drogas psicotrópicas, como o LSD, em diversos tipos de usuários. O raciocínio era simples: se uma droga induzia uma série de alterações psicológicas num individuo normal, provavelmente, desequilíbrios internos no cérebro deveriam explicar os problemas emocionais e de conduta nas pessoas em geral. Buscar esse equilíbrio químico deveria ser a ambição de terapêuticas eficazes. Isso propiciou a medicalização de qualquer comportamento humano, tido como inadequado, nas próximas décadas.

Segundo alguns escritores, esse procedimento foi a base para o uso da ritalina em “crianças problema”. O fato dessa anfetamina parecer ajudar alguns alunos a serem mais maleáveis em ambiente escolar firmou o diagnostico de DDAH. Como existe algo químico que auxilia, então realmente existe uma enfermidade. Isso colocou em segundo plano todos os demais aspectos do eventual problema. É curioso se observar que as crianças com desatenção e/ou hiperatividade não parecem ter qualquer dificuldade em aprender a jogar vídeo game ou ficar horas no computador. Nem mesmo de realizar qualquer atividade que realmente lhes interesse. Também é interessante observar que dificilmente os ambientes sócio-familiares dessas mesmas crianças não sejam fartamente carregados de aspectos psicológicos pouco confortáveis. Quando, antigamente, as crianças passavam um turno na escola e o outro turno todo na rua brincando com outras crianças, fazendo as maiores “artes”, poucos pais e professores se queixavam de crianças com tal tipo de problema. O mundo moderno é um modelo de evolução: as crianças de hoje tomam calmantes. Obviamente porque os modelos de felicidade dos adultos atuais deve ser um “virtuoso” estímulo para as crianças chegarem à maturidade.

O dr Breggin argumenta que se a pessoa não tinha nenhum desequilíbrio químico, com o uso da fluoxetina ela certamente vai ficar. Ele entende que a medicação provoca uma super-estimulacao nos receptores de serotonina no cérebro. Mas o fato é que a situação anterior ao uso do medicamento já seria uma tentativa de busca de um estado de equilíbrio. Dessa forma o organismo, na tentativa de retornar ao estágio pregresso, simplesmente desativa ou elimina alguns receptores dos neurônios. O laboratório Lilly, que lançou esse medicamento, não apresentou estudos a respeito da reversibilidade desse reconhecido problema. O fato do uso contínuo gerar uma lesão tipicamente cicatricial como a discinesia tardia, obviamente nos faz crer que essa perda de receptores é irreversível.

Esse autor relata que enfrentou o laboratório sob juramento, e não houve qualquer refutação aos relatos que demonstrou em seu livro.

Sabe-se que muitas vezes o uso de medicamentos pode ser bastante útil para o alívio imediato de sintomas psíquicos muito desagradáveis. Mas não podemos esquecer que geralmente o remédio não significa a cura de qualquer problema emocional que eventualmente possamos estar enfrentando. Ordinariamente todas as pessoas passam por situações realmente ásperas em suas vidas, e muitas vezes a solução definitiva de certas questões pode ir contra o próprio conjunto de crenças e aspirações desse indivíduo. A maioria das pessoas que passam por “enfermidades mentais” sofre esse processo como fruto de crises pessoais relativamente desafiadoras. Se as premissas de conduta familiar e social forem uma base limitadora na expressão de suas versatilidades adaptativas, esse indivíduo pode efetivamente ter muita dificuldade de superar certas situações de sofrimento.

AS VIRTUDES DOS REMÉDIOS

Os remédios podem reduzir a ansiedade, auxiliar o sono, melhorar a performance cognitiva, mas são apenas ferramentas que qualificam os potenciais de um indivíduo para redefinir suas decisões, de remontar seu caminho, e de elaborar novas escolhas. O cenário futuro é fruto do encontro com as recompensas ambientais objetivas e, geralmente, subjetivas oferecidas pelo meio em que vive, ou daquele que escolherá viver. Mas ainda, na pior das hipóteses, será fruto da eventual falta dessas mesmas recompensas do ambiente de onde não conseguirá escapar. Nesse caso o mundo moderno irá oferecer seus fármacos, cada vez mais modernos, como uma solução de vanguarda... E um diagnóstico psiquiátrico, um suave e científico colchão que poderá justificar seu medo e sua incapacidade de mudar!

Alias, sobre essa noção de progresso vivemos um estranho paradoxo. Quando mais o mundo evolui mais gente precisa de remédio e tratamento psiquiátrico. Nos EUA os gastos com tratamentos psiquiátricos subiram de 3,2 bilhões em 1969 para 33,1 bilhões em 1994. Um aumento de 934%, muito superior ao crescimento populacional. Mas em 1999 já eram de 80 bilhões de dólares! Sem sermos irônicos, com certeza, felizes devem estar os fabricantes de medicamentos.

Será que a evolução da humanidade, se é que ela realmente acontece, não deveria gerar um mundo com um número progressivamente menor de problemas mentais? Será que o progresso não deveria premiar os indivíduos com melhor saúde e menos uso de remédios? Ou será que o panorama paradisíaco, que foi desenhado para o nosso futuro, seria uma fantasia provocada pelo uso de euforizantes e calmantes, que tornarão todos nós anestesiados o suficiente para não desfazer o mito de que o mundo moderno é, graças à tecnologia, um mundo melhor?

José Carlos Brasil Peixoto - 210207

Um exame cruel: Desnudando os laboratórios farmacêuticos

“A medicina acadêmica (americana) está a venda?” - pergunta Márcia Angell, ex-editora chefe do New England Journal of Medicine. A resposta que obteve: “A medicina acadêmica está à venda? Não! O dono atual está muito feliz com ela!”

Esse tipo de informação está em debate no indispensável livro “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos” da editora Record.

A enorme desconfiança que os fabricantes de medicamentos vem recebendo do público consumidor nos Estados Unidos parece ser mais do que justificável. A leitura desse detalhado exame, realizado por uma das pessoas mais influentes da opinião pública americana, pode se assemelhar em certos momentos à leitura de um livro de terror e suspense, e seria ótimo se fosse apenas isso, afinal de contas os relatos e observações dizem respeito aos medicamentos que milhares de milhões de pessoas utilizam, acreditando na boa fé de que os fabricam, mesmo que os preços amassem os orçamentos pessoais, ou inviabilizem as políticas públicas de fornecimento de medicamentos gratuitos à população. Aliás, esse termo - gratuito - jamais poderia constar como adjetivo na divulgação de programas de fornecimentos de medicação (e vacinas), pois, tudo que chega a população é excepcionalmente bem pago por todos os contribuintes do país, mesmo aqueles que compram esses medicamentos nas farmácias, (que não são poucas na paisagem urbana atual, o que nos levar a confirmar a idéia de que é altíssima a rentabilidade de auxiliar as pessoas a se manterem medicadas).

A Dra. Angell traça um percurso bastante abrangente sobre a avaliação dos laboratórios e suas considerações são muito consistentes, pois utiliza dados sob a perspectiva de uma “insider” do sistema.

Naturalmente a formação do preço é alvo de ampla prospecção. Nós poderíamos compreender os altos custos dos medicamentos novos e úteis pela complexa máquina que supostamente envolve a pesquisa de novas substâncias. Porém isso esbarra na incrível revelação de que a maioria das pesquisas é realizada por Institutos Nacionais de Saúde (NIHs), subsidiados por dinheiro do governo americano, logo dos próprios contribuintes. Dessa forma a esmagadora maioria dos investimentos consumidos pela parte nobre da produção de um medicamento – P&D: Pesquisa e Desenvolvimento – é bancada pelo futuro consumidor. As gigantescas cifras envolvidas nos gastos da indústria farmacêutica são dependidas em... marketing! A agressividade no marketing é mais pesquisada pelos grandes laboratórios do que qualquer outra coisa. A onda absurda de propagandas diretas ou estilizadas na mídia é uma das expressões mais óbvias disso. Mas há também muito dinheiro envolvido na disseminação das “pretensas” amostras grátis em consultórios médicos e hospitais. É óbvio que a gratuidade das amostras será regiamente compensada pelo preço final ao consumidor.

O exame da autora sobre a atitude amplamente aceita dos laboratórios bancarem simpósios científicos e até mesmo financiarem os Programas de Educação Continuada, além de ofertarem todo o tipo de brinde e presentes aos médicos, nos deixa com a desagradável impressão de a palavra corrupção seria um adjetivo quase gentil para esse tipo de procedimento.

Afinal todos os laboratórios farmacêuticos são corporações financeiras que têm como objetivo número um o lucro. Mesmo que isso possa parecer antipático para os crédulos de que exista bondade e comiseração nas altas esferas do capitalismo, os dados mostrados nesse impressionante livro não vão dar margem a muita gentileza com empresas do porte da Bayer, Ely Lilly, Johnson entre outras poucas, que formam um ostensivo cartel.

A FDA (órgão de administração de medicamentos e alimentos americana), vista por muitos no Brasil como entidade de respeito e veneração não passa de uma instituição reduzida a validar o desejo insaciável desses laboratórios de se manterem numa curiosa faixa de exclusividade e monopólio das pesquisas em saúde. Acreditar na imparcialidade e capacidade do FDA é tão ingênuo quanto a crença que tínhamos que o DDT era inofensivo para o ser humano, que a iniciativa de colocar flúor na água potável seria a idéia de dentistas, ou de que jamais alguém poderia colocar soda cáustica no leite das crianças.

O comércio dos medicamentos nos EUA é uma rede de interesses tão intricados e bem defendidos nos meios políticos americanos que não há como crer em idoneidade como predicado positivo dessa indústria. São bilhões de dólares envolvidos! E o jogo político é levado ao extremo na defesa desses valores!

A maquiagem dos medicamentos é um outro dado muito curioso levantado pela autora. Isso acontece pela existência de uma curiosa lei de patentes em vigor naquele país. A história do Claritin® e do Desalex® é desoladora, (são a rigor a mesma substância, mas o segundo é derivado do primeiro, processo que o corpo humano efetivamente executa), os preços mais elevados do segundo não são explicáveis pelo eventual gasto em pesquisa e desenvolvimento. Mas mais inacreditável é a história do AZT, o famoso remédio para combater a AIDS. Como sabemos é uma doença que ganhou notoriedade nos anos 80 (1983), e seria justificável imaginar que medicamentos para uma doença grave como essa pudesse ter preços elevados pelo custo de sua pesquisa. Mas não seria o caso do AZT, que foi sintetizado em 1963, muitos anos antes, e além do mais por uma instituição federal a Michigan Câncer Foundation. Os preços elevados têm mais a ver com a aplicabilidade desse medicamento (originalmente projetado para tratamento de câncer, além de ser útil para quadros virais como o herpes) em uma doença que ganhou evidência, do que com a eventualmente trabalhosa descoberta de uma Nova Entidade Molecular. Nesse caso certamente nada de novo foi criado. Nesse e em muitos, muitos outros mais.

Isso faz parte da luta incansável de se criar outros usos para medicamentos muito conhecidos ou de uso muito restrito. Isso possivelmente explique o uso de medicamentos velhos em situações novas e de alta lucratividade, por uma necessidade inusitada. Por exemplo, o uso de remédios anticonvulsivantes no novo grupo de difícil descrição como os remédios estabilizadores de humor! (como: Depakene®, Topamax® ou Lomatrigina®). Ou o retorno de um antiinflamatório démodé como o ibuprofeno (Alivium®), subitamente levado à primeira escolha no tratamento de febre em crianças, apesar da noção mais criteriosa de não se medicar às cegas quadros não bem definidos, como uma febre súbita sem outros sintomas. Todos sabem que antiinflamatórios podem obscurecer a expressão clínica de uma enfermidade em suas primeiras manifestações. Mas o marketing foi muito eficiente e esse remédio é muito vendido. O uso da fluoxetina na enigmática sintomatologia da fase pré-menstrual sofisticadamente denominada de Transtorno Disfórico Pré-menstrual, sob forma de pílulas coloridas, mas com um nome diferente do conhecido Prozac®, é outro exemplo de maquiação (nos EEUU o produto com o nome Serafem® é a substância fluoxetina em pílulas de cor diferente do Prozac®, e por estar com cor e nome diferente ficou com nova indicação!), mas isso pode ser uma estratégia muito mais comum do que gostaríamos que fosse..

Desalentador, também, é averiguar que nos últimos anos pouquíssimos remédios realmente novos foram oferecidos à população, e a ampla maioria desse pequeno contingente não saiu de dentro dos poderosos laboratórios farmacêuticos industriais.

Da compra pesada de influência política e legal à produção de pesquisas ridículas que comparam novos produtos com placebos e não com seus antepassados de eficiência já comprovada, passando pela criação de uma noção fortemente sofismável de que os novos remédios são melhores que os antigos (para o problema da hipertensão parece certamente que não são), além da criação de diagnósticos novos e amplamente imprecisos, e da alteração da percepção popular das necessidades terapêuticas (afinal para quem está dirigida o marketing de venda de produtos como o Viagra®, senão que para pessoas jovens que em tese não seriam os naturais candidatos ao seu consumo), as informações de Márcia Angell podem parecer um pesado excesso de realidade.

Mas sua leitura é fundamental. Muitas vezes pode ser rude com o leitor. Mas o consumidor tem que conhecer as premissas que construíram a cultura medicamentosa dos tempos modernos. E os profissionais de saúde não devem abrir mão do seu direito de construir uma sociedade que precisa de fato de uma pesquisa científica independente e genuína, longe dos perversos e constantes conflitos de interesses que construíram o onipresente capitalismo científico - lamacento e redundante, mas soberano nas prescrições medicamentosas caras, perigosas e desnecessárias dos receituários que a maioria da população vem recebendo.


Livro: A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos – como somos enganados e o que podemos fazer a respeito – Márcia Angell, editora Record, edição de 2007, 319 páginas. Tradução do inglês: “The truth about the drug companies”.


Por José Carlos Brasil Peixoto – 021107

sábado, 11 de dezembro de 2010

La atención que no se presta: el "mal" llamado ADD

Un libro de Juan Vasen

Las escuelas se han poblado, de un modo “epidémico”, de niños que se distraen con facilidad, se muestran desatentos y con dificultades para los aprendizajes formales. Niños inquietos, que presentan reacciones impulsivas y con dificultades para aceptar normas y reglas. Para muchos esto tiene un nombre, una sigla en verdad, que designa al trastorno: ADD. Profesionales, docentes y buena parte de los medios de comunicación lo consideran como problema de aprendizaje y comportamiento que responde a un déficit, de atención, de concentración y, en última instancia, de dopamina.
Este libro plantea que la desatención se define como problema a partir de ciertos parámetros que parecen exteriores al problema mismo. Pero no lo son. La desatención cosificada como déficit y la inquietud tematizada como exceso surgen de un modo de evaluación cuantitativamente grosero, que se realiza clasificatoria e irresponsablemente a partir de escalas que presentan un gran margen de error.
El ADD es un mal nombre para un problema de época que estalla en las aulas. Un nombre que se desentiende de los nuevos rasgos de los niños de hoy, del piso inestable en que pretenden afirmarse padres y maestros, de los cambios en la cultura y la temporalidad, de los encantos del consumo y de la desorientación de las escuelas.

Transtornos Mentais: Em breve ninguém mais vai ser classificado como ‘normal’

Nova edição de guia de saúde mental pode classificar quase todos com transtorno – Guia para diagnóstico será publicado em maio de 2013 e pode desvalorizar gravidade de doenças

Uma edição atualizada da “Bíblia” sobre saúde mental usada pelos médicos pode incluir diagnósticos de “transtornos” como birras da criança e compulsão alimentar, o que poderia significar que em breve ninguém mais vai ser classificado como normal.

Principais especialistas em saúde mental alertaram nesta terça-feira, 27, que uma nova edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, que está sendo revisado agora para publicação em maio de 2013, poderia desvalorizar a gravidade de doenças mentais e rotular quase todas as pessoas com algum tipo de desordem.

Citando exemplos de novas atualizações, como “depressão com ansiedade suave”, “síndrome com risco de psicose” e “transtorno do temperamento irregular”, os especialistas disseram que muitas pessoas perfeitamente saudáveis poderiam no futuro ser informadas de que estão doentes. Reportagem da Agência Reuters.


“Fazer isso é reduzir de uma piscina para uma poça d’água o que é normal”, disse Til Wykes, do Instituto de Psiquiatria do Kings College London.

O manual é publicado pela Associação Psiquiátrica Americana e contém descrições, sintomas e outros critérios para o diagnóstico de transtornos mentais. É visto como a Bíblia global para o campo da medicina de saúde mental.

Os critérios são estabelecidos para fornecer definições claras a profissionais que tratam pacientes com transtornos mentais e a pesquisadores e empresas da indústria farmacêutica que procuram desenvolver novas formas de tratamento.

Wykes e os colegas Felicity Callard, também do Instituto de Psiquiatria do Kings College, e Nick Craddock, do Departamento de Medicina Psicológica e Neurologia da Universidade de Cardiff, disseram que muitos na comunidade psiquiátrica estão preocupados com a expansão das orientações, pois o mais provável será que ninguém mais será classificado como normal.

“Tecnicamente, com a classificação de tantos novos transtornos, todos teremos disordens”, disseram eles em declaração conjunta. “Isso pode levar a crer que muitos de nós também ‘precisamos’ de drogas para tratar nossas ‘condições’ – e muitas dessas drogas podem ter efeitos colaterais desagradáveis ou perigosos.”

Os cientistas disseram que o diagnóstico da “síndrome do risco de psicose” é particularmente preocupante, pois poderia rotular falsamente jovens que podem ter apenas um pequeno risco de desenvolver a doença.

“É um pouco como dizer a 10 pessoas com um resfriado comum que elas estão “em risco de ter uma síndrome de pneumonia”, quando apenas um tem a probabilidade de desenvolver a doença”, disse Wykes.

A Associação Psiquiátrica Americana não respondeu a um pedido de comentário sobre o assunto.

Os cientistas deram exemplos usando a revisão anterior do manual, que foi chamada de DSM 4 e incluiu diagnósticos mais amplos e categorias para déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), autismo e transtorno bipolar na infância.

Isso, segundo eles, “contribuiu para três epidemias falsas”, particularmente nos Estados Unidos. “Durante a última década, quantos médicos alarmaram pais a dar drogas como Ritalina para crianças sem elas realmente precisarem?”, perguntou Wykes.

Milhões de pessoas em todo o mundo – muitas delas, crianças – tomam medicamentos para TDAH, incluindo Ritalina, que é conhecido genericamente como metilfenidato, e drogas afins, como Adderall e Vyvanse. Só nos Estados Unidos, as vendas desses medicamentos representavam cerca de US$ 4,8 bilhões em 2008.

Wykes e Callard publicaram comentário no Jornal de Saúde Mental expressando preocupação com a próxima revisão do manual e destacando 10 ou mais documentos de outros cientistas que também estão preocupados.

Reportagem [Mental health experts ask: Will anyone be normal?] da Agência Reuters, publicada pelo estadao.com.br

Reportagem [Mental health experts ask: Will anyone be normal?] da Agência Reuters, publicada pelo estadao.com.br

EcoDebate, 29/07/2010