domingo, 26 de setembro de 2010

Loucuras da psiquiatria

A Drapetomania

Foi um diagnóstico médico proposto em 1851 pelo Dr. Samuel A. Cartwright, um médico membro da Louisiana Medical Association, que exercia a sua profissão em Louisiana, nos Estados Unidos.
O termo drapetomania deriva do grego (drapetes, "um [escravo] fugido") + μανια (mania, "loucura, frenesi").
Este diagnóstico apareceu em um artigo publicado no New Orleans Medical and Surgical Journal, no qual o Dr. Cartwright argumentou que a tendência de fuga dos escravos na verdade se tratava de uma desordem mental que podia ser prevenida e tratada com altos índices de sucesso.
Especificamente, como prevenção e reversão deste quadro de transtorno mental, o Dr. Cartwright propôs chicotadas a escravos que pareciam carrancudos e insatisfeitos sem quaisquer motivos e também, presumidamente quando aplicável, que se efetuasse a amputação dos dedos dos pés dos pacientes.


Anarchia

Benjamin Rush "Pai da American Psychiatry", o seu retrato adorna o selo oficial da American Psychiatric Association, cunhou no início do século XIX, um diagnóstico interessante chamado "anarchia", uma "forma de loucura" que ele usou para rotular as pessoas que procuraram uma sociedade mais democrática, pois muitas pessoas no momento em que viveu Benjamin Rush estavam descontentes com a estrutura política dos Estados Unidos Membros - escravatura, voto restrito aos homens brancos propriedade, posse, etc.


Homossexualismo

Em 1973, grande pressão é feita pelos homossexuais sobre a Associação Americana de Psiquiatria para que ela suprimisse a homossexualidade do rol de doenças mentais, propondo chamá-la, a partir de então, de “uma forma natural de desenvolvimento sexual”.
A entidade, diante de tanta repercussão negativa, acabou reconhecendo o erro de catalogar a homossexualidade como doença e removeu-a de seu Manual de Diagnóstico e Estatística de Desordens Psiquiátricas.
A Associação Americana de Psicologia, por sua vez, terminou por declarar que a homossexualidade não era uma patologia em 1975.
Finalmente, em 1° de janeiro de 1993, a Organização Mundial da Saúde (O.M.S.) retirou a homossexualidade de sua lista de doenças mentais, uma grande vitória contra as idéias pré-concebidas, mas não propriamente contra o preconceito, que existe em função da crença que os homossexuais detêm uma opção de escolha e que só é homossexual quem quer.
A decisão se baseou, principalmente, no fato de que não foi provada qualquer diferença existente entre a saúde mental de um indivíduo heterossexual e a saúde mental de um homossexual.

domingo, 19 de setembro de 2010

Ritalina está vinculada a um aumento de 500 % para risco da morte súbita em crianças

Quão perigosas são as drogas estimulantes
anfetamínicas prescritas para crianças com o tão chamada déficit
de atenção e hiperatividade?

De acordo com pesquisa científica
subsidiada pelo FDA e pelo Instituto Nacional de Saúde Mental,
substâncias como a Ritalina aumentam o risco de morte súbita em
quinhentos por cento entre crianças e adolescentes.

Nestes casos de morte súbita, a criança repentinamente desacorda
e vem a morrer, e somente será descoberta mais tarde pelos pais
ou irmãos. É isso que aconteceu com Matthew Hohmann em 2004
(Conheça esse assunto), E de acordo com esta nova pesquisa, isso
se mantém ocorrendo para cada vez mais crianças em uma taxa
que é 500 por cento mais elevada do que seria considerada típico
para crianças com uma idade e condição de saúde semelhante.

Tdah droga como a Ritalina são, obviamente, estimulantes
anfetamínicos. Eles costumavam ser vendidos na rua como
"entorpecentes" mas agora eles são prescritos por psiquiatras para
crianças depois do subjetivo diagnóstico de uma doença fictícia:
Tdah - uma "desordem" que não tem nenhuma evidência biológica
mensurável.

De forma curiosa, o FDA proibiu ephedra, um estimulante herbário,
depois que um punhado de consumidores morreu por consumir
quantias enormes da erva por um esforço desesperado para perder
peso. Naquele caso, ao proibir a erva, o FDA anunciou "os riscos
excedem as vantagens dos benefícios," declarando que "ephedra
não seria seguro em qualquer dose."
Em grande contraste a isso, mesmo quando crianças literalmente
estão caindo mortas depois de tomar medicamentos para DDHA, o
FDA está agora insistindo "os benefícios superam os riscos."

Mas sobre que benefícios, exatamente, eles estão falando? Não
existe nenhum estudo científico confiável que demonstre que as
drogas para Tdah como a Ritalina tenham qualquer efeito
positivo a longo prazo para crianças. De fato, os estudos
disponíveis mostram que as drogas anti Tdah retardam o
crescimento físico de crianças ao mesmo tempo que prejudicam o
desenvolvimento do cérebro.

As crianças que tomam estas drogas,
em outras palavras, não estão meramente com uns 500 por cento
de aumento do risco de morte súbita; eles são praticamente
assegurados que serão retardados em seu desenvolvimento físico
e cerebral, por essa perigosa droga estimulante anfetamínica.

Os únicos benefícios reais para esses medicamentos anti Tdah, no
final de contas, são os benefícios financeiros para as companhias
farmacêuticas. Com as centenas de milhões de doses dessas
drogas sendo vendidas ao redor do mundo, a cada ano, a Big
Pharma (conjuntos das grandes empresas farmacêuticas) estão se
banhando em dinheiro com seus lucros enquanto crianças estão
jazendo mortas em suas próprias casas.

Então enquanto o FDA afirma que "os benefícios valem a pena sobre os riscos”, o que eles querem dizer é que os benefícios financeiros para as companhias
farmacêuticas são mais valiosos que os riscos para as vidas das
crianças. Produtos farmacêuticos posam como perigo iminente para nossas
crianças

Quando pais levam suas crianças para psiquiatras e são informados
para colocá-los sob o uso de produtos como a Ritalina, a maioria
dos pais acredita no que os médicos dizem. Eles acreditam que o
FDA não aprovaria uma droga tão perigosa, que poderia matar seu
filho sem aviso prévio. E eles acreditam que as companhias
farmacêuticas nunca venderiam produtos que prejudicassem
pessoas.

Mas tais convicções são tolas. Na realidade, o FDA, as companhias
de medicamentos e os psiquiatras estão todos trabalhando em
conluio, conscientemente empurrando drogas perigosas, mortais
sobre famílias com o propósito exclusivo de lucros geradores.
Enquanto crianças sofrem e morrem, eles tirar bom proveito da
ilusão da Tdah, primeiro promovendo uma doença fictícia e então
mais tarde pelos altos lucros de um charlatanismo farmacêutico.

E ainda, incrivelmente, a mídia popular não diz nada. Os senadores
e congressistas permanecem mudos. Psiquiatras corruptos,
desonestos, mantêm-se empurrando as pílulas goela a baixo e
farmacêuticos continuam enchendo os frascos, enquanto crianças morrem, dia após dia, pelo uso dos medicamentos que teriam sido indicados como uma forma de ajudá-las.
A medicalização em massa de nossos próprios filhos
é o maior crime não elucidado de nosso tempo.

A medicalização em massa de nossos próprios filhos é o maior
crime não elucidado de nosso tempo. É o holocausto químico dos
dias atuais sendo perpetrado pelo nosso próprio sistema de saúde!
Hoje, a indústria farmacêutica opera como uma associação
organizada de drogas, inventando doenças fictícias, para então
capitalizar com os "tratamentos" para tais doenças embora os
tratamentos em última instância prejudicam muito mais pessoas do
que elas concebivelmente ajudariam.

Para impulso adicional a seus lucros, as companhias de medicamentos oferecem testes gratuitos(free "screening") – baseados em uns questionários totalmente não
científicos, suficientemente equipados para rotular virtualmente todo
mundo como Tdah (adultos incluídos).

O cenário geral do Distúrbio de Déficit de Atenção e Hiperatividade
Tdah, é um circo de “junk” ciência (ciência podre), corporações lucrativas e traição do FDA. Se isso não fosse tão trágico e mortal, seria absolutamente cômico. Mas ao final,infelizmente, o envenenamento químico em massa de nossas crianças continua hoje, e aqueles que lucram continuam a chamar isto de "tratamento".

Por Mike Adams
Editor do Natural News

Ritalina nelas!

Em 1984 traduzi um texto mostrando os malefícios da ritalina, um "remédio que me ajuda a ficar bonzinho", segundo uma criança que tomava a droga.

Já no Brasil a RITALINA abunda. É ritalina em crianças, em jovens, sobretudo nos mais pobres e negros.

Pois não é que hoje, sábado, logo de manhã, a S*, uma mãe com Aids que mora aqui perto de meu bairro passou por aqui para me pedir trabalho. Ela e o marido estão com Aids. Moram no Quebec. Não no Canadá, aqui mesmo em um bairro pobre. Conversamos e ela me mostrou a receita do filho: ele toma ritalina. S* não sabe o que é ritalina.

A orientadora da escola (ele tem 7 anos) enviou uma carta para a médica J. Y. e esta lhe deu ritalina. Descobri que quase todos os meninos da escola M. V. tomam ritalina. A ritalina é uma droga para aqueles que têm "deficit de atenção".

Ora, ora, todos os meninos da escola têm deficit de atenção? Se todos têm deficit de atenção, ou todos os pobres e negros nascem com deficit de atenção ou o deficit é da orientadora da escola. Bem, é claro que tem barulho aí. Tenho que ir procurar o que acontece naquela escola e ir ao Ministério Público. Ou aceitar o lema: com pobre e negro só ritalina!

Marta Bellin
http://blogdamartabellini.blogspot.com/

sábado, 18 de setembro de 2010

A que servem os novos estudos do cérebro?

Vamos comentar aqui dois estudos do cérebro recentemente publicados no meio científico, em Londres e EUA. O primeiro afirma que a revolução digital remodela o funcionamento do cérebro, e o segundo, que a puberdade atrapalha o aprendizado, propondo então uma droga para a cura do “problema”.

Estudo 1: Revolução digital remodela funcionamento do cérebro

Noticiado pela internet, esse estudo da University College de Londres é, sem dúvida, bastante questionável. Como boa parte desse tipo de pesquisa, uma série de fatores parece não ter sido contemplada. Quem seriam os 100 sujeitos voluntários que tiveram seus cérebros investigados? Qual a origem, a história de vida, a formação cultural, em que contexto social se encontram? Teria essa amostra um número suficiente para conclusões tão assertivas/definitivas?

Bem, na verdade, estamos aqui propagando uma informação veiculada na internet, que tem a tendência de simplificar os conteúdos. Talvez a pesquisa não tenha incorrido em equívocos tão básicos... Mas ainda que tenha, não deixa de tocar em questões que merecem atenção.

Uma delas diz respeito à desenvoltura com que os mais jovens vasculham a internet em busca de informações, pulando de um site a outro sem dedicar muito tempo aos assuntos abordados. Segundo os estudiosos ingleses, isso seria indicativo de uma remodelagem cerebral que já acomete a nova geração, conclusão que acaba levando muitos a suporem que seria essa a causa de certa aversão aos livros de forma geral, e em especial àqueles com maior número de páginas.

Nem precisaríamos de uma pesquisa nesses moldes para concluir que grandes mudanças na maneira de ser e estar no mundo estão em curso, obviamente muitas delas determinadas pelas novas tecnologias de comunicação das quais nos tornamos, cada vez mais, consumidores vorazes. Que isso afeta nossos circuitos cerebrais também não chega a ser uma novidade. E que os mais jovens cada vez leem menos ou procuram textos mais curtos, deixando para trás os clássicos da literatura, também é preocupação constante de pais, educadores, tendo sido, inclusive, abordada recentemente pelo jornalista Daniel Piza em seu blog

O problema é fazer um pacote de tudo isso e, apressadamente, traçar relações de causa e efeito simplistas.
Vamos por partes.
É fato que as crianças lidam com instrumentos da nova tecnologia cada vez com mais facilidade. Não há família em que não haja, ao menos, uma que explique com desenvoltura o funcionamento de um novo aparelho eletrônico. Do celular ao laptop, lançam-se a desvendar seus mecanismos, sem medo de ousar. Arriscamos afirmar que a ausência de medo e, por que não dizer, a potência em aprender a lidar com esses aparelhos estão relacionadas às situações em que elas se encontram ao utilizá-los, que são, na maioria das vezes, bem sucedidas.

Em primeiro lugar, os adultos atribuem às crianças um papel social de destaque no uso dessa tecnologia. A relação de aprendizagem aparece, muitas vezes, invertida. É a criança que ensina, que tem o seu dizer valorizado pelo adulto. Essa parceria assim definida influencia positivamente na relação que ela estabelece com esse conhecimento, fazendo com que se aproxime cada vez mais dele.

Outro fator relevante é o fato de a criança ter seus objetivos mais imediatamente atingidos nessas situações, ainda que seus conhecimentos prévios sejam parciais. Vejamos, como exemplo, o uso do computador. Ainda que não tenha domínio da leitura e da escrita, a criança faz uso do que já sabe e também de outros recursos para atingir o que quer. Com muita facilidade, aprende como acessar os programas desejados na internet e, na hora de digitar, vê na cópia um recurso adequado. A aplicação de seus conhecimentos a leva a assistir vídeos, a jogar novos e diferentes games, a acompanhar seriados, campeonatos e a se comunicar com outras pessoas. Coisas que ela não conseguiria se dependesse apenas da leitura e da escrita em outro meio que não fosse o digital.

Talvez estejamos diante de um fenômeno, ainda em formação, que pode trazer consequências para a educação formal das crianças: a tendência de os mais jovens desenvolverem mais rápida e substancialmente seu letramento digital em detrimento de outros como, por exemplo, o escolar. Nesta perspectiva, talvez o mais importante não seja avaliar se o uso do computador está ou não remodelando o cérebro. Importante é constatar que as situações letradas em que há seu uso acabam sim por exigir determinadas posturas, habilidades e capacidades não exigidas ou favoráveis em outros contextos. Querer que um estudante iniciante, dentro do contexto escolar, leia um livro de x páginas, sem que isso tenha um sentido para ele, não é algo que se exija a priori. Isto será fruto de um trabalho, bem feito, na esfera escolar, que leve em consideração, inclusive, as capacidades dos aprendizes desenvolvidas em outros contextos.

Para os educadores, fica o dilema: como fazer com que os métodos de ensino correspondam um pouco mais a esse ritmo que vai sendo imposto na atualidade, mas sem perder a densidade necessária para formar pessoas com senso crítico, capazes justamente de lidar com esse bombardeio de informações?

Estudo 2: Puberdade atrapalha o aprendizado, e cientistas propõem droga para curar o “problema”

Também neste estudo há muito a ser questionado em termos de procedimentos: o mecanismo celular que, segundo conclusão dos cientistas, afetaria a capacidade de aprender dos adolescentes, até o momento, só foi demonstrado em camundongos teens, os quais teriam sido submetidos a “atividades de aprendizado”.
Mickey Mouse e, mais recentemente, o simpático ratinho do filme Ratatouille, Remy, são de fato referências fundamentais para compreendermos o comportamento humano... talvez porque, a exemplo das fábulas, tenham sido justamente humanizados por seus criadores.

Bem, no caso desta pesquisa, temos o contraponto disso: adolescentes humanos tratados como roedores! Quais teriam sido as atividades de aprendizado propostas aos ratinhos de laboratório? Qual a concepção que esses cientistas têm sobre o ato de aprender? Talvez tenham avaliado a capacidade de descobrir o mecanismo de funcionamento de uma ratoeira...
Mas, segundo a reportagem (Folha de S. Paulo, 19/03/2010), esses estudiosos americanos “já sabiam” que “a puberdade afeta a capacidade de aprender”, prejudicando a memória linguística, o que leva a concluir que só até 10/12 anos é possível ensinar coisas básicas às crianças. Talvez algo como abrir a lata de biscoitos para conseguir um queijinho, ou melhor, um biscoitinho...

Como resolver o “problema”? Simples: com uma dose extra do hormônio ligado ao estresse e à motivação (THP), aplicada no hipocampo dos “animais”. Assim, nossos adolescentes selvagens voltariam a “aprender bem” e todos poderiam comemorar, felizes: pais, professores e, claro, a indústria farmacêutica!

Mas, para alívio, ainda que parcial, a própria cientista que encabeça a pesquisa discorda da ideia de que “a puberdade seja um ‘problema’ que requer ser tratado”. Podemos então respirar aliviados? Sua descoberta foi só uma brincadeira de laboratório que, no máximo, vai causar protestos indignados de alguma sociedade protetora de animais, preocupada com a ética entre roedores? Infelizmente não: a investigação continua
"Não seria uma boa ideia tratar crianças ou adolescentes em geral com uma droga assim, mas algumas crianças têm mais dificuldade de aprender, e nelas o deficit de aprendizagem da puberdade é pior. O ideal seria desenvolver uma droga mais seletiva." Vejam: crianças com “dificuldades de aprender”, para essa cientista, fatalmente, pioram na adolescência.

Não há como escapar.
Sejamos justos, porém, com a pesquisadora. Questionada sobre a possibilidade de a nova droga ser tão controversa quanto a ritalina – droga da obediência hoje receitada sem escrúpulos, ela criticou essa conduta dos colegas, advertindo que o resultado de sua investigação não se aplica aos adolescentes normais...

Como dissemos, inúmeros são os questionamentos que põem em evidência a validade desse tipo de investigação. Quais os parâmetros para definir normalidade? Qual a situação de aprendizagem a que as cobaias, humanas ou não, são “submetidas” durante as testagens? Contexto sociocultural, história de vida e inúmeras outras variáveis que determinam modos particulares de apreensão de conhecimentos mais uma vez são desprezados em prol de uma suposta neutralidade científica. O que os pesquisadores se esquecem é que também eles avaliam suas cobaias a partir de parâmetros, ideologias, modos de pensar social e historicamente determinados, posicionamentos políticos e éticos. Não há, pois, neutralidade, em especial quando o tema é aprendizagem humana, com toda sua riqueza e complexidade.

Ambas as pesquisas nos remetem a essa temática e às formas como a sociedade contemporânea tem, cada vez mais, solapado essa complexidade.
Um dos sinais de que não estamos sabendo responder às novas formas como crianças e adolescentes se envolvem em situações de aprendizagem é, justamente, a proliferação do diagnóstico de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade – TDAH, já abordada aqui no site (cf. nas seções mito ou verdade e reflexões, aba profissional).
Será que a “perda da capacidade de atenção” que caracteriza esse quadro clínico pode ser, na atualidade, considerada uma “doença neurológica”? Se o cérebro dos mais jovens já está sendo afetado pelas novas demandas sociais é difícil dizer - serão necessárias muitas outras pesquisas, mais consistentes. Mas não há como negar que, como já ressaltamos, desde cedo, as crianças estão sendo solicitadas a participar de situações sociais dinâmicas, recheadas de sons, imagens, discursos apresentados simultaneamente. É quase impossível não corresponder a esses estímulos!

Ambas as pesquisas, com todos os seus equívocos e inconsistências, podem então servir como um alerta: precisamos prestar atenção ao fato de que não há esse número absurdo de desviantes, de crianças e adolescentes doentes como muitos especialistas e mesmo educadores têm propagado.
Antes de distribuirmos diagnósticos que tem levado à medicalização da infância e adolescência (cf. http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/), com remédios como Ritalina sendo prescritos sem pudores e sem uma avaliação criteriosa e ponderação sobre os riscos que trazem, prestemos atenção ao papel que nós, os mais velhos, temos desempenhado na contemporaneidade.

O que temos feito, dentro e fora da escola, para que diferentes situações que envolvem aprendizado sejam significativas para os jovens? Que ambiente e cuidados temos lhes ofertado? Estamos conseguindo acompanhá-los e sustentá-los em suas angústias e questões, próprias de cada momento do processo de amadurecimento pessoal?
No caso dos adolescentes, as tão propagadas crises não podem ser vistas como patológicas e, portanto, não devem ser “curadas” – sem elas, algo significativo se perde, e não só para meninos e meninas. Para nós adultos também. Buscar medicamentos para torná-los obedientes significa um empobrecimento também de nossas possibilidades de transformação. Quem vai apontar nossas falhas, questionar nossas ações, cobrar a autenticidade de nossos gestos e palavras? E mais: com quem vamos nos confrontar?

Todos nós, familiares, educadores, terapeutas necessitamos desse rico e conflituoso convívio com adolescentes desafiadores, intransigentes, precisamos sinalizar disposição para esse confronto com a autoridade que representamos, sem perder de vista a empatia e abrindo campo para que possam contribuir, genuinamente, para a reinvenção do futuro.

Claudia Perrotta e Lucia Masini
http://www.ifono.com.br/

Medicar na aprendizagem: vale a pena correr esse risco?

Dizem que o remédio é bom; só causa certa dependência, mas qual o problema?
Ruy Castro, em 10/04, escreveu sobre o tema em sua coluna na Folha de S. Paulo. Conta ele que uma conhecida sua, alta funcionária de uma empresa, passaria por uma avaliação para ser promovida no emprego. Decidiu, então, usar o mesmo remédio que o filho vinha tomando, para ficar alerta durante essa avaliação. Trata-se da já “famosa” Ritalina, usada para combater o "transtorno de deficit de atenção e hiperatividade" (TDAH).

Só então essa mãe se deu conta dos efeitos desse medicamento, diariamente consumido por seu filho: mais do que alerta, “a mulher de 40 anos, mestrado na Sorbonne, leitora de Barthes e Foucault” ficou “clarividente, eufórica, confiante, poderosa”. E, ainda, abatida pela abstinência, quando passou o efeito da dose única. Lembra o jornalista que “Ritalina é um estimulante do sistema nervoso central. Produz o mesmo efeito que a cocaína, as meta-anfetaminas, as "bolinhas" e outras drogas legais e ilegais. A bula adverte sobre a ocorrência de insônia e perda de apetite, recomenda o uso combinado com antidepressivo e menciona a possibilidade de o "abuso" levar à tolerância e à dependência”.
Essa situação, na verdade, um mero acaso, nos leva a pensar em sua gravidade.

Vejamos.
Durante um bom tempo na infância, os pais costumam experimentar comidas, líquidos e guloseimas antes de ofertá-los aos filhos. Querem avaliar o gosto, a consistência, a temperatura, para se certificarem de que o alimento não vai causar nenhum dano a eles. Ora, o mesmo deveria ser feito com os remédios que são receitados para as crianças?

A bula da Ritalina, e também do Concerta, usado para a mesma função, de fato avisam:
ATENÇÃO: PODE CAUSAR DEPENDÊNCIA FÍSICA OU PSÍQUICA
VENDA SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA. "SÓ PODE SER VENDIDO COM A RETENÇÃO DA RECEITA"
Só isso já seria um alerta e tanto para os pais buscarem uma segunda e terceira opiniões sobre o uso desse medicamento em crianças em pleno processo de formação física, psíquica e social. Mas, angustiados com a situação escolar de seus filhos, muitas vezes, sentindo-se impotentes diante de especialistas, veem no remédio a salvação de todos os problemas, pois, de fato, a mudança comportamental é visível logo nas primeiras dosagens. Assim, é comum encontrarmos pais que defendam o uso destas drogas e classifiquem a atitude de quem questiona essa medicalização como irresponsável.

É compreensível, porque é muito desesperador ver seu filho sofrer por não conseguir acompanhar o ritmo de aprendizagem escolar. Entretanto, é importante ressaltar que a Ritalina age, fundamentalmente, sobre o comportamento, o que não significa que contribua para uma aprendizagem efetiva. Muitas vezes, o que temos são crianças e adolescentes apáticos, submetidos, sendo esse “novo” comportamento visto por professores e pais como um sinal de melhor condição para o aprendizado. Não é.
Impor a essas crianças e adolescentess que sigam no processo de aprendizagem via medicalização nos faz perder a possibilidade de compreender o que estão nos comunicando sobre suas angústias e inseguranças em relação à condição de aprender, e crescer.
Esse assunto merece nossa atenção... E por um tempo bem maior do que aquele atingido com uma dose de Ritalina.

29/04/2010
Lucia Masini e Claudia Perrotta

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Para o Cremesp, um terço dos médicos mantém uma "relação contaminada com a indústria farmacêutica e de equipamentos, que ultrapassa os limites éticos"

Quase metade (48%) dos médicos paulistas que recebem visitas de propagandistas de laboratórios prescreve medicamentos sugeridos pelos fabricantes.

Na área de equipamentos médico-hospitalares, a eficácia da visita é ainda maior: 71% dos profissionais da saúde acatam a recomendação da indústria.

Os dados, obtidos com exclusividade pela Folha, vêm de uma pesquisa inédita do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de SP), que avaliou o comportamento médico perante as indústrias de remédios, órteses, próteses e equipamentos médico-hospitalares.

Feito pelo Datafolha, o levantamento envolveu 600 médicos de várias especialidades, que representam o universo de 100 mil profissionais que atuam no Estado.

Do total, 80% deles recebem visitas dos propagandistas de medicamentos -em média, oito por mês.

A pesquisa revela que 93% dos médicos afirmam ter recebido, nos últimos 12 meses, produtos, benefícios ou pagamento da indústria em valores até R$ 500.

Outros 37% declaram que ganharam presentes de maior valor, desde cursos a viagens para congressos internacionais.

RELAÇÃO CONTAMINADA

Para o Cremesp, um terço dos médicos mantém uma "relação contaminada com a indústria farmacêutica e de equipamentos, que ultrapassa os limites éticos".

"Para boa parte [dos médicos], a única forma de atualização é a propaganda de laboratório. E com ela vem os presentes, os brindes. Isso tomou uma dimensão maior, mais promíscua, quando as receitas passaram a ser monitoradas", diz Luiz Alberto Bacheschi, presidente do Cremesp.

Em 2005, a Folha revelou que, em troca de brindes ou dinheiro, farmácias e drogarias brasileiras auxiliavam a indústria de remédios a vigiar as receitas prescritas por médicos.

Com acesso a cópias do receituário, representantes dos laboratórios pressionavam os profissionais a indicar seus produtos e os recompensavam por isso.

A prática não é ilegal, mas é considerada antiética. Afinal, quem pode pagar essa conta é o paciente. "Na troca de favores, o médico pode receitar um medicamento que tenha a mesma eficácia clínica do que o concorrente, mas que custa mais caro", explica o cardiologista Bráulio Luna Filho, coordenador da pesquisa do Cremesp.

APOIO

A maioria dos médicos (62%) avalia de forma positiva a relação com a indústria.

Para 73% deles, os congressos científicos não se viabilizariam sem apoio da indústria de medicamentos e de equipamentos.

Luna Filho pondera que, com a internet, o acesso a informações médicas está universalizado. "Essa conversa de que médico tem que ir para congresso no exterior para se atualizar é balela. Ele vai é para fazer turismo."

Existem várias normas -inclusive um artigo no novo Código de Ética Médica, uma resolução da Anvisa e um "código de condutas" da associação das indústrias- que tentam evitar o conflito de interesses na relação entre médicos e laboratórios.

"O problema é que não existe um controle rigoroso de nenhuma das partes", diz Volnei Garrafa, professor de bioética da UnB.


Sala de Imprensa
Cremesp na Mídia
Folha de São Paulo, 31/05/2010
CLÁUDIA COLLUCCI DE SÃO PAULO

Texto original: http://www.cremesp.org.br/pdfs/pesquisa.pdf