domingo, 12 de dezembro de 2010

Premissas discutíveis: Há algo de errado com as bases biológicas da psiquiatria?

Quando Steve Hyman, presidente da NIMH (Instituto Norte-americano de Saúde Mental) foi à comissão de bioética do presidente Bush (Commission on Bioethics) defender o aumento meteórico das vendas de Ritalina e outros calmantes para as crianças, ele não evocou um único estudo que demonstrasse as bases biológicas do quadro designado como Desordem de Déficit de Atenção e Hiperatividade (DDAH), nem tampouco citou um único estudo que mostrasse a reais vantagens do uso de medicamentos como esse (a Ritalina) para as crianças. Ao invés disso ele apenas citou “as taxas de 50 % de concordância de esquizofrenia entre gêmeos idênticos”. Essa assertiva é utilizada para dizer que, como existe uma base biológica para a doença mental, no caso a esquizofrenia, todas as outras doenças também têm base biológica, excelente justificativa para o emprego de agentes químicos que modificam as funções mentais. Mas, evidentemente, é muito estranho que se utilize apenas esse argumento: se houvesse realmente bons indicadores biológicos que pudessem comprovar esse conceito de enfermidade eles necessariamente seriam apontados. Esse tipo de posicionamento faculta qualquer um a se perguntar se essa “pretensa” patologia tem, de fato, bases orgânicas.

A UTILIDADE DOS ESTUDOS COM GÊMEOS

Hoje em dia, mais do que nunca, os genes são responsabilizados por tudo que tem difícil explicação em medicina, mais ainda em psiquiatria, principalmente quando a simples presunção de “organicidade” justifique terapêuticas medicamentosas.

Mas têm ecoado no meio científico vários autores que resolveram reexaminar algumas “verdades” das ciências médicas. Principalmente quando essas verdades são obtidas por métodos estatísticos. A revisão nas estatísticas realizada pelo dr. Uffe Ravnskov pôs por terra toda a teoria de que a doença cardíaca seria ligada ao consumo de gordura saturada e as altas taxas de colesterol. Um outro autor, o psicólogo Jay Joseph, escreveu o livro: “The Gene Illusion” (A ilusão genética), onde examina em minúcias a pedra-fundamental da psiquiatria moderna, baseada em medicação: o estudo com gêmeos, que provariam que a esquizofrenia é uma doença genética. Segundo esse autor esses estudos constituem uma falácia! Seria um mito, uma mistura de inúmeros equívocos unidos para provar algo que precisava ser provado, alinhavado pelo uso tendencioso da matemática. Em um artigo da revista “The Human Nature Review”, em 2003, outro autor, Jonathan Leo, faz um exame da obra de J. Joseph, citando os aspectos mais preponderantes, e impressionando o leitor pela marcada fragilidade do conhecimento convencionalmente aceito que daria sustentação à premissa biológica da psiquiatria.

Joseph propôs esse tema: “Estudos com gêmeos em psiquiatria: ciência ou pseudo-ciência?”, na revista Psychiatry Quartery (primavera de 2002). Nesse artigo ele lembra do psiquiatra Abraham Myerson, que escreveu em 1925, sob a égide da influência do eugenismo, que os genes deveriam ser muito importantes, mesmo sem haver como provar sua real existência, pois todos conhecemos talentos hereditários, virtudes hereditárias, vícios hereditários etc. Nada além de preconceito.

Apesar de haver estudos que parecem, num primeiro olhar, oferecer provas de que há uma questão genética por detrás da esquizofrenia, quando esses dados são submetidos a exames mais qualificados, essas provas são dissolvidas.

Tradicionalmente, se compara a freqüência de gêmeos idênticos com gêmeos fraternos portadores de esquizofrenia. A esmagadora maioria dos livros texto de psiquiatria cita que o fato de haver uma concordância de 50% para gêmeos idênticos contra 15% entre os gêmeos fraternos como a prova irrefutável de que essa doença tem base genética, portanto causa biológica, sendo uma enfermidade similar, por exemplo, à hemofilia. Assim sendo, só mesmo estratégias químicas podem ser de utilidade. Se criou uma premissa em psiquiatria que justificaria tudo o que viria depois: a maciça abordagem medicamentosa sobre as manifestações psicológicas. (Porém muito do que veio ‘depois’ está sendo duramente criticada por inúmeros estudiosos em todo o mundo. (Talvez um pouco menos no Brasil)).

Joseph revisou TODOS os estudos com gêmeos apontados nos artigos e livros de psiquiatria. E no final de sua revisão não conseguiu mais, na melhor das hipóteses, do que eventuais 20% de concordância entre gêmeos idênticos. Ele ainda relata que alguns pesquisadores, de fato, não tinham encontrado taxas elevadas de concordância. Mas outros cientistas preocupados em salvar o mito “ajudavam” tais pesquisas a ficarem com taxas mais “aceitáveis” à regra geral, empregando fatores matemáticos de correção, geralmente injustificáveis. Algumas pesquisas que não se enquadrariam simplesmente seriam omitidas. Um desses estudos, que apresenta uma das maiores amostragens populacionais, não chega a 11% de concordância entre gêmeos idênticos e esquizofrenia.

As pesquisas com gêmeos, idênticos, mas que foram criados separadamente, apresentam grosseiros erros de execução, e não deveriam ser levados em consideração. Um deles parece ser obviamente manipulado.

Leo fala da interessante pesquisa mostrada na revista Science, sobre um alelo de genes ligados ao polimorfismo da 5 HTT (serotonina) presentes em algumas pessoas que poderiam predispor à depressão SE HOUVESSE EXPOSIÇÃO À UMA SÉRIE DE EVENTOS TRAUMATICOS. 86% de pacientes depressivos, submetidos a quatro fatos traumáticos em uma clínica teriam pelo menos uma cópia desse alelo. Porém 72% de pessoas que também tinham esse alelo, e que teriam sido submetidos a eventos traumáticos não teriam ficado deprimidos. Não parece que isso – possuir essa marca genética - torne mais fácil descobrir quem tem maior ou menor tendência de ficar depressivo.

A DOENÇA MENTAL E O MEIO AMBIENTE

Outra grande discussão de ambos os autores é sobre os efeitos do meio ambiente na saúde mental. Mesmo uma doença como a esclerose múltipla, que deve, efetivamente, possuir predicados genéticos, parece precisar de um ou vários estímulos (desconhecidos) ambientais para iniciar sua manifestação.

Embora a questão ambiental sempre seja apontada, efetivamente, têm sido promovidas poucas mudanças que realmente possam gerar benefícios para a saúde mental, principalmente para as crianças que levam o rótulo de hiperativas, visto que mesmo os autores, que são defensores da premissa biológica, costumam dizer que o aspecto ambiental é muito importante.

NÚMERO CRESCENTE

O número de doenças mentais tem se ampliado nos manuais de diagnóstico psiquiátrico mais do que qualquer outro grupo de doenças conhecidas. O primeiro guia de diagnóstico de doença mental (DSM I), de 1952, tinha 60 enfermidades. Passou por quatro revisões, até chegar ao DSM IV, com mais do que o quádruplo do número original. Praticamente qualquer comportamento humano se encontra nesse manual. Dessa forma é difícil não encontrar alguém com alguma enfermidade mental.

Isso pode ter relação com a origem eugênica da psiquiatria americana. Nos anos cinqüenta houve um grande encontro de interesses entre a Sociedade Eugênica Americana, (mais tarde Sociedade de Estudo de Biologia Social), e a Associação Americana de Psiquiatria. A catalogação de comportamento humano poderia ser um indicador bastante forte que daria o adequado suporte para a noção de que haveria indivíduos que melhor representariam a sociedade americana do que outros. Uma das formas pensadas em melhorar a população seria, por exemplo, castrando indivíduos esquizofrênicos ou que parecessem ser. Não é a toa que em pleno século XX, tratamentos psiquiátricos radicais nunca foram proibidos. A terapia com eletrochoque é um exemplo. Outro exemplo foi a do médico que fazia lobotomias de forma itinerante, pelo interior dos Estados Unidos, com um método bem barato: perfurar o crânio do “felizardo” paciente com um quebrador de gelo, introduzido acima do canal lacrimal, com o auxilio, naturalmente de um... martelo! Nada como zelar pela boa conduta das pessoas, fossem elas adultos dementes ou crianças teimosas...

O PROZAC É SEGURO?

Um detalhado estudo da história “oculta” da psiquiatria pode ser encontrada no extenso artigo “The Hidden Side of the Psychiatry” escrito por Gary Null, PhD. Esse artigo faz referência a um outro livro muito interessante: “Talking Back to Prozac: What Doctors Aren 't Telling You About Today 's Most Controversial Drug” (Voltando ao Prozac: Os que os médicos não lhe tem falado a respeito dessa controversa droga da atualidade), do médico Peter Breggin.

O Prozac, nome comercial da fluoxetina, segundo os relatos desse autor, não poderia ter sido liberado pelo FDA (órgão de fiscalização americano), pois os melhores resultados preliminares teriam sido alcançados quando a fluoxetina foi utilizada com um sedativo adicional. Além do mais os estudos foram feitos com amostras insuficientes de pacientes. De qualquer maneira o Prozac parece estar envolvido com um número muito significativo de problemas, desde a superestimulação, (excitação, ansiedade, insônia) e uma piora posterior do quadro depressivo.

Os problemas mais complicados passam pela questão dos distúrbios motores, que podem ir da acatisia (inquietude motora), sintoma psiquiátrico já bem conhecido em pacientes medicados com anti-psicóticos até um problema insolúvel como a DISTONIA E A DISCINECIA TARDIA. Esses efeitos co-laterais não são situações transitórias, mas sim cicatrizes neuro-funcionais, intratáveis. Esse problema é bem conhecido com o emprego dos remédios usados por esquizofrênicos, sendo que geralmente aparecem com vários anos de uso (usuários de haloperidol ou clorpromazina, por exemplo). Infelizmente somente agora estamos encontrando pacientes com um número de anos suficientemente longo de uso de fluoxetina, para encontrarmos esse irremediável problema.

O DESEQUILIBRIO QUÍMICO DO CÉREBRO

Gary Null também fala em seu artigo da questão biológica. Habitualmente os pacientes são advertidos (ou ameaçados?) sobre o desequilíbrio químico do cérebro para cederem ao uso de algum medicamento que ajude a sua mente e as suas emoções a funcionarem melhor.

O conceito de desequilíbrio químico foi primeiramente exposto ao público em 1963, na revista Life. Esse conceito foi desenvolvido a partir dos estudos que foram realizados sobre os efeitos das drogas psicotrópicas, como o LSD, em diversos tipos de usuários. O raciocínio era simples: se uma droga induzia uma série de alterações psicológicas num individuo normal, provavelmente, desequilíbrios internos no cérebro deveriam explicar os problemas emocionais e de conduta nas pessoas em geral. Buscar esse equilíbrio químico deveria ser a ambição de terapêuticas eficazes. Isso propiciou a medicalização de qualquer comportamento humano, tido como inadequado, nas próximas décadas.

Segundo alguns escritores, esse procedimento foi a base para o uso da ritalina em “crianças problema”. O fato dessa anfetamina parecer ajudar alguns alunos a serem mais maleáveis em ambiente escolar firmou o diagnostico de DDAH. Como existe algo químico que auxilia, então realmente existe uma enfermidade. Isso colocou em segundo plano todos os demais aspectos do eventual problema. É curioso se observar que as crianças com desatenção e/ou hiperatividade não parecem ter qualquer dificuldade em aprender a jogar vídeo game ou ficar horas no computador. Nem mesmo de realizar qualquer atividade que realmente lhes interesse. Também é interessante observar que dificilmente os ambientes sócio-familiares dessas mesmas crianças não sejam fartamente carregados de aspectos psicológicos pouco confortáveis. Quando, antigamente, as crianças passavam um turno na escola e o outro turno todo na rua brincando com outras crianças, fazendo as maiores “artes”, poucos pais e professores se queixavam de crianças com tal tipo de problema. O mundo moderno é um modelo de evolução: as crianças de hoje tomam calmantes. Obviamente porque os modelos de felicidade dos adultos atuais deve ser um “virtuoso” estímulo para as crianças chegarem à maturidade.

O dr Breggin argumenta que se a pessoa não tinha nenhum desequilíbrio químico, com o uso da fluoxetina ela certamente vai ficar. Ele entende que a medicação provoca uma super-estimulacao nos receptores de serotonina no cérebro. Mas o fato é que a situação anterior ao uso do medicamento já seria uma tentativa de busca de um estado de equilíbrio. Dessa forma o organismo, na tentativa de retornar ao estágio pregresso, simplesmente desativa ou elimina alguns receptores dos neurônios. O laboratório Lilly, que lançou esse medicamento, não apresentou estudos a respeito da reversibilidade desse reconhecido problema. O fato do uso contínuo gerar uma lesão tipicamente cicatricial como a discinesia tardia, obviamente nos faz crer que essa perda de receptores é irreversível.

Esse autor relata que enfrentou o laboratório sob juramento, e não houve qualquer refutação aos relatos que demonstrou em seu livro.

Sabe-se que muitas vezes o uso de medicamentos pode ser bastante útil para o alívio imediato de sintomas psíquicos muito desagradáveis. Mas não podemos esquecer que geralmente o remédio não significa a cura de qualquer problema emocional que eventualmente possamos estar enfrentando. Ordinariamente todas as pessoas passam por situações realmente ásperas em suas vidas, e muitas vezes a solução definitiva de certas questões pode ir contra o próprio conjunto de crenças e aspirações desse indivíduo. A maioria das pessoas que passam por “enfermidades mentais” sofre esse processo como fruto de crises pessoais relativamente desafiadoras. Se as premissas de conduta familiar e social forem uma base limitadora na expressão de suas versatilidades adaptativas, esse indivíduo pode efetivamente ter muita dificuldade de superar certas situações de sofrimento.

AS VIRTUDES DOS REMÉDIOS

Os remédios podem reduzir a ansiedade, auxiliar o sono, melhorar a performance cognitiva, mas são apenas ferramentas que qualificam os potenciais de um indivíduo para redefinir suas decisões, de remontar seu caminho, e de elaborar novas escolhas. O cenário futuro é fruto do encontro com as recompensas ambientais objetivas e, geralmente, subjetivas oferecidas pelo meio em que vive, ou daquele que escolherá viver. Mas ainda, na pior das hipóteses, será fruto da eventual falta dessas mesmas recompensas do ambiente de onde não conseguirá escapar. Nesse caso o mundo moderno irá oferecer seus fármacos, cada vez mais modernos, como uma solução de vanguarda... E um diagnóstico psiquiátrico, um suave e científico colchão que poderá justificar seu medo e sua incapacidade de mudar!

Alias, sobre essa noção de progresso vivemos um estranho paradoxo. Quando mais o mundo evolui mais gente precisa de remédio e tratamento psiquiátrico. Nos EUA os gastos com tratamentos psiquiátricos subiram de 3,2 bilhões em 1969 para 33,1 bilhões em 1994. Um aumento de 934%, muito superior ao crescimento populacional. Mas em 1999 já eram de 80 bilhões de dólares! Sem sermos irônicos, com certeza, felizes devem estar os fabricantes de medicamentos.

Será que a evolução da humanidade, se é que ela realmente acontece, não deveria gerar um mundo com um número progressivamente menor de problemas mentais? Será que o progresso não deveria premiar os indivíduos com melhor saúde e menos uso de remédios? Ou será que o panorama paradisíaco, que foi desenhado para o nosso futuro, seria uma fantasia provocada pelo uso de euforizantes e calmantes, que tornarão todos nós anestesiados o suficiente para não desfazer o mito de que o mundo moderno é, graças à tecnologia, um mundo melhor?

José Carlos Brasil Peixoto - 210207

Um exame cruel: Desnudando os laboratórios farmacêuticos

“A medicina acadêmica (americana) está a venda?” - pergunta Márcia Angell, ex-editora chefe do New England Journal of Medicine. A resposta que obteve: “A medicina acadêmica está à venda? Não! O dono atual está muito feliz com ela!”

Esse tipo de informação está em debate no indispensável livro “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos” da editora Record.

A enorme desconfiança que os fabricantes de medicamentos vem recebendo do público consumidor nos Estados Unidos parece ser mais do que justificável. A leitura desse detalhado exame, realizado por uma das pessoas mais influentes da opinião pública americana, pode se assemelhar em certos momentos à leitura de um livro de terror e suspense, e seria ótimo se fosse apenas isso, afinal de contas os relatos e observações dizem respeito aos medicamentos que milhares de milhões de pessoas utilizam, acreditando na boa fé de que os fabricam, mesmo que os preços amassem os orçamentos pessoais, ou inviabilizem as políticas públicas de fornecimento de medicamentos gratuitos à população. Aliás, esse termo - gratuito - jamais poderia constar como adjetivo na divulgação de programas de fornecimentos de medicação (e vacinas), pois, tudo que chega a população é excepcionalmente bem pago por todos os contribuintes do país, mesmo aqueles que compram esses medicamentos nas farmácias, (que não são poucas na paisagem urbana atual, o que nos levar a confirmar a idéia de que é altíssima a rentabilidade de auxiliar as pessoas a se manterem medicadas).

A Dra. Angell traça um percurso bastante abrangente sobre a avaliação dos laboratórios e suas considerações são muito consistentes, pois utiliza dados sob a perspectiva de uma “insider” do sistema.

Naturalmente a formação do preço é alvo de ampla prospecção. Nós poderíamos compreender os altos custos dos medicamentos novos e úteis pela complexa máquina que supostamente envolve a pesquisa de novas substâncias. Porém isso esbarra na incrível revelação de que a maioria das pesquisas é realizada por Institutos Nacionais de Saúde (NIHs), subsidiados por dinheiro do governo americano, logo dos próprios contribuintes. Dessa forma a esmagadora maioria dos investimentos consumidos pela parte nobre da produção de um medicamento – P&D: Pesquisa e Desenvolvimento – é bancada pelo futuro consumidor. As gigantescas cifras envolvidas nos gastos da indústria farmacêutica são dependidas em... marketing! A agressividade no marketing é mais pesquisada pelos grandes laboratórios do que qualquer outra coisa. A onda absurda de propagandas diretas ou estilizadas na mídia é uma das expressões mais óbvias disso. Mas há também muito dinheiro envolvido na disseminação das “pretensas” amostras grátis em consultórios médicos e hospitais. É óbvio que a gratuidade das amostras será regiamente compensada pelo preço final ao consumidor.

O exame da autora sobre a atitude amplamente aceita dos laboratórios bancarem simpósios científicos e até mesmo financiarem os Programas de Educação Continuada, além de ofertarem todo o tipo de brinde e presentes aos médicos, nos deixa com a desagradável impressão de a palavra corrupção seria um adjetivo quase gentil para esse tipo de procedimento.

Afinal todos os laboratórios farmacêuticos são corporações financeiras que têm como objetivo número um o lucro. Mesmo que isso possa parecer antipático para os crédulos de que exista bondade e comiseração nas altas esferas do capitalismo, os dados mostrados nesse impressionante livro não vão dar margem a muita gentileza com empresas do porte da Bayer, Ely Lilly, Johnson entre outras poucas, que formam um ostensivo cartel.

A FDA (órgão de administração de medicamentos e alimentos americana), vista por muitos no Brasil como entidade de respeito e veneração não passa de uma instituição reduzida a validar o desejo insaciável desses laboratórios de se manterem numa curiosa faixa de exclusividade e monopólio das pesquisas em saúde. Acreditar na imparcialidade e capacidade do FDA é tão ingênuo quanto a crença que tínhamos que o DDT era inofensivo para o ser humano, que a iniciativa de colocar flúor na água potável seria a idéia de dentistas, ou de que jamais alguém poderia colocar soda cáustica no leite das crianças.

O comércio dos medicamentos nos EUA é uma rede de interesses tão intricados e bem defendidos nos meios políticos americanos que não há como crer em idoneidade como predicado positivo dessa indústria. São bilhões de dólares envolvidos! E o jogo político é levado ao extremo na defesa desses valores!

A maquiagem dos medicamentos é um outro dado muito curioso levantado pela autora. Isso acontece pela existência de uma curiosa lei de patentes em vigor naquele país. A história do Claritin® e do Desalex® é desoladora, (são a rigor a mesma substância, mas o segundo é derivado do primeiro, processo que o corpo humano efetivamente executa), os preços mais elevados do segundo não são explicáveis pelo eventual gasto em pesquisa e desenvolvimento. Mas mais inacreditável é a história do AZT, o famoso remédio para combater a AIDS. Como sabemos é uma doença que ganhou notoriedade nos anos 80 (1983), e seria justificável imaginar que medicamentos para uma doença grave como essa pudesse ter preços elevados pelo custo de sua pesquisa. Mas não seria o caso do AZT, que foi sintetizado em 1963, muitos anos antes, e além do mais por uma instituição federal a Michigan Câncer Foundation. Os preços elevados têm mais a ver com a aplicabilidade desse medicamento (originalmente projetado para tratamento de câncer, além de ser útil para quadros virais como o herpes) em uma doença que ganhou evidência, do que com a eventualmente trabalhosa descoberta de uma Nova Entidade Molecular. Nesse caso certamente nada de novo foi criado. Nesse e em muitos, muitos outros mais.

Isso faz parte da luta incansável de se criar outros usos para medicamentos muito conhecidos ou de uso muito restrito. Isso possivelmente explique o uso de medicamentos velhos em situações novas e de alta lucratividade, por uma necessidade inusitada. Por exemplo, o uso de remédios anticonvulsivantes no novo grupo de difícil descrição como os remédios estabilizadores de humor! (como: Depakene®, Topamax® ou Lomatrigina®). Ou o retorno de um antiinflamatório démodé como o ibuprofeno (Alivium®), subitamente levado à primeira escolha no tratamento de febre em crianças, apesar da noção mais criteriosa de não se medicar às cegas quadros não bem definidos, como uma febre súbita sem outros sintomas. Todos sabem que antiinflamatórios podem obscurecer a expressão clínica de uma enfermidade em suas primeiras manifestações. Mas o marketing foi muito eficiente e esse remédio é muito vendido. O uso da fluoxetina na enigmática sintomatologia da fase pré-menstrual sofisticadamente denominada de Transtorno Disfórico Pré-menstrual, sob forma de pílulas coloridas, mas com um nome diferente do conhecido Prozac®, é outro exemplo de maquiação (nos EEUU o produto com o nome Serafem® é a substância fluoxetina em pílulas de cor diferente do Prozac®, e por estar com cor e nome diferente ficou com nova indicação!), mas isso pode ser uma estratégia muito mais comum do que gostaríamos que fosse..

Desalentador, também, é averiguar que nos últimos anos pouquíssimos remédios realmente novos foram oferecidos à população, e a ampla maioria desse pequeno contingente não saiu de dentro dos poderosos laboratórios farmacêuticos industriais.

Da compra pesada de influência política e legal à produção de pesquisas ridículas que comparam novos produtos com placebos e não com seus antepassados de eficiência já comprovada, passando pela criação de uma noção fortemente sofismável de que os novos remédios são melhores que os antigos (para o problema da hipertensão parece certamente que não são), além da criação de diagnósticos novos e amplamente imprecisos, e da alteração da percepção popular das necessidades terapêuticas (afinal para quem está dirigida o marketing de venda de produtos como o Viagra®, senão que para pessoas jovens que em tese não seriam os naturais candidatos ao seu consumo), as informações de Márcia Angell podem parecer um pesado excesso de realidade.

Mas sua leitura é fundamental. Muitas vezes pode ser rude com o leitor. Mas o consumidor tem que conhecer as premissas que construíram a cultura medicamentosa dos tempos modernos. E os profissionais de saúde não devem abrir mão do seu direito de construir uma sociedade que precisa de fato de uma pesquisa científica independente e genuína, longe dos perversos e constantes conflitos de interesses que construíram o onipresente capitalismo científico - lamacento e redundante, mas soberano nas prescrições medicamentosas caras, perigosas e desnecessárias dos receituários que a maioria da população vem recebendo.


Livro: A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos – como somos enganados e o que podemos fazer a respeito – Márcia Angell, editora Record, edição de 2007, 319 páginas. Tradução do inglês: “The truth about the drug companies”.


Por José Carlos Brasil Peixoto – 021107

sábado, 11 de dezembro de 2010

La atención que no se presta: el "mal" llamado ADD

Un libro de Juan Vasen

Las escuelas se han poblado, de un modo “epidémico”, de niños que se distraen con facilidad, se muestran desatentos y con dificultades para los aprendizajes formales. Niños inquietos, que presentan reacciones impulsivas y con dificultades para aceptar normas y reglas. Para muchos esto tiene un nombre, una sigla en verdad, que designa al trastorno: ADD. Profesionales, docentes y buena parte de los medios de comunicación lo consideran como problema de aprendizaje y comportamiento que responde a un déficit, de atención, de concentración y, en última instancia, de dopamina.
Este libro plantea que la desatención se define como problema a partir de ciertos parámetros que parecen exteriores al problema mismo. Pero no lo son. La desatención cosificada como déficit y la inquietud tematizada como exceso surgen de un modo de evaluación cuantitativamente grosero, que se realiza clasificatoria e irresponsablemente a partir de escalas que presentan un gran margen de error.
El ADD es un mal nombre para un problema de época que estalla en las aulas. Un nombre que se desentiende de los nuevos rasgos de los niños de hoy, del piso inestable en que pretenden afirmarse padres y maestros, de los cambios en la cultura y la temporalidad, de los encantos del consumo y de la desorientación de las escuelas.

Transtornos Mentais: Em breve ninguém mais vai ser classificado como ‘normal’

Nova edição de guia de saúde mental pode classificar quase todos com transtorno – Guia para diagnóstico será publicado em maio de 2013 e pode desvalorizar gravidade de doenças

Uma edição atualizada da “Bíblia” sobre saúde mental usada pelos médicos pode incluir diagnósticos de “transtornos” como birras da criança e compulsão alimentar, o que poderia significar que em breve ninguém mais vai ser classificado como normal.

Principais especialistas em saúde mental alertaram nesta terça-feira, 27, que uma nova edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, que está sendo revisado agora para publicação em maio de 2013, poderia desvalorizar a gravidade de doenças mentais e rotular quase todas as pessoas com algum tipo de desordem.

Citando exemplos de novas atualizações, como “depressão com ansiedade suave”, “síndrome com risco de psicose” e “transtorno do temperamento irregular”, os especialistas disseram que muitas pessoas perfeitamente saudáveis poderiam no futuro ser informadas de que estão doentes. Reportagem da Agência Reuters.


“Fazer isso é reduzir de uma piscina para uma poça d’água o que é normal”, disse Til Wykes, do Instituto de Psiquiatria do Kings College London.

O manual é publicado pela Associação Psiquiátrica Americana e contém descrições, sintomas e outros critérios para o diagnóstico de transtornos mentais. É visto como a Bíblia global para o campo da medicina de saúde mental.

Os critérios são estabelecidos para fornecer definições claras a profissionais que tratam pacientes com transtornos mentais e a pesquisadores e empresas da indústria farmacêutica que procuram desenvolver novas formas de tratamento.

Wykes e os colegas Felicity Callard, também do Instituto de Psiquiatria do Kings College, e Nick Craddock, do Departamento de Medicina Psicológica e Neurologia da Universidade de Cardiff, disseram que muitos na comunidade psiquiátrica estão preocupados com a expansão das orientações, pois o mais provável será que ninguém mais será classificado como normal.

“Tecnicamente, com a classificação de tantos novos transtornos, todos teremos disordens”, disseram eles em declaração conjunta. “Isso pode levar a crer que muitos de nós também ‘precisamos’ de drogas para tratar nossas ‘condições’ – e muitas dessas drogas podem ter efeitos colaterais desagradáveis ou perigosos.”

Os cientistas disseram que o diagnóstico da “síndrome do risco de psicose” é particularmente preocupante, pois poderia rotular falsamente jovens que podem ter apenas um pequeno risco de desenvolver a doença.

“É um pouco como dizer a 10 pessoas com um resfriado comum que elas estão “em risco de ter uma síndrome de pneumonia”, quando apenas um tem a probabilidade de desenvolver a doença”, disse Wykes.

A Associação Psiquiátrica Americana não respondeu a um pedido de comentário sobre o assunto.

Os cientistas deram exemplos usando a revisão anterior do manual, que foi chamada de DSM 4 e incluiu diagnósticos mais amplos e categorias para déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), autismo e transtorno bipolar na infância.

Isso, segundo eles, “contribuiu para três epidemias falsas”, particularmente nos Estados Unidos. “Durante a última década, quantos médicos alarmaram pais a dar drogas como Ritalina para crianças sem elas realmente precisarem?”, perguntou Wykes.

Milhões de pessoas em todo o mundo – muitas delas, crianças – tomam medicamentos para TDAH, incluindo Ritalina, que é conhecido genericamente como metilfenidato, e drogas afins, como Adderall e Vyvanse. Só nos Estados Unidos, as vendas desses medicamentos representavam cerca de US$ 4,8 bilhões em 2008.

Wykes e Callard publicaram comentário no Jornal de Saúde Mental expressando preocupação com a próxima revisão do manual e destacando 10 ou mais documentos de outros cientistas que também estão preocupados.

Reportagem [Mental health experts ask: Will anyone be normal?] da Agência Reuters, publicada pelo estadao.com.br

Reportagem [Mental health experts ask: Will anyone be normal?] da Agência Reuters, publicada pelo estadao.com.br

EcoDebate, 29/07/2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Os Efeitos da Cocaína no Cérebro






Corte cerebral pós-mortem de um adito em cocaína. A lesão
mostrada refere-se a uma hemorragia cerebral massiva e está associada ao uso da cocaína.

A cocaína é a droga que mais rapidamente devasta o usuário. Bastam alguns meses ou mesmo semanas para que ela cause um emagrecimento profundo, insônia, sangramento do nariz e corisa persistente, lesão da mucosa nasal e tecidos nasais, podendo inclusive causar perfuração do septo (12). Doses elevadas consumidas regularmente também causam palidez, suor frio, desmaios, convulsões e parada respiratória. No cérebro, a cocaína afeta especialmente as áreas motoras, produzindo agitação intensa. A ação da cocaína no corpo é poderosa porém breve, durando cerca de meia hora, já que a droga é rapidamente metabolizada pelo organismo.

Tanto a dopamina como outras substâncias aumentadas no cérebro podem produzir vasoconstrição e causar lesões. Estas lesões podem incluir hemorragias agudas e infarto no cérebro (zona de morte celular, causada por falta de oxigênio), bem como necrose do miocárdio, podendo levar à morte súbita.

Cérebro & Mente

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Ritalina: seus efeitos estruturais e bioquímicos em algumas regiões do cérebro pode ser ainda maior do que os da cocaína (Original em Inglês)

Novos estudos científicos trazem uma nova onda de preocupação com a segurança das drogas mais usadas, pois parece que, muitas vezes, seus efeitos sobre o cérebro não são totalmente compreendidos. Por exemplo, um inquérito recente mostra que a Ritalina, uma droga prescrita milhões de vezes por ano nos Estados Unidos para o tratamento de doenças como o Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), tem os mesmos efeitos sobre o cérebro como o uso regular de cocaína , especialmente nas regiões do córtex recompensa.

O novo estudo, realizado em ratos de laboratório, revela ainda que, às vezes, os efeitos da Ritalina são aproximadamente os mesmos que os da cocaína, que deveria ser uma grande preocupação para os pais que tratam seus filhos com a droga. A equipe de investigação, com base na Universidade Rockefeller, revelou que o metilfenidato, o ingrediente ativo na droga de ADHD, tem efeitos a longo prazo, que se confundem com as do estupefaciente terrível.

"O metilfenidato, que é pensado para ser um composto relativamente inócuo, pode ter efeitos estruturais e bioquímicos em algumas regiões do cérebro que pode ser ainda maior do que os da cocaína. Mais estudos são necessários para determinar as implicações destas mudanças comportamentais e de compreender os mecanismos pelos quais estas drogas afetam a formação de sinapses ", RU associado de pesquisa sênior Yong Kim, co-autor do novo estudo publicado na edição de 03 de fevereiro da revista Proceedings da Academia Nacional das Ciências, afirma.

RU Vincent Astor Professor Paul Greengard, o chefe do Laboratório de Neurociência Molecular e Celular, também co-autor do papel novo. A equipe estudou o comportamento de ratos de laboratório, que foram injectados com a cocaína ou o metilfenidato durante duas semanas consecutivas. Uma vez concluído o período experimental, os pesquisadores têm focado suas perguntas sobre os efeitos das duas substâncias sobre os neurônios.

Para a maioria das conclusões, a Ritalina tem se comportado em muito, como a cocaína pois agem da mesma maneira no cérebro, pelo fato de que ambos são substâncias psicoativas e, como tal, têm efeitos semelhantes. Em alguns casos, no entanto, o methylpenidate revelou um impacto mais forte do que o do narcóticos, provocando, por exemplo, um maior nível de expressão de proteínas em certas partes do cérebro.

Esta pesquisa é muito importante para a saúde de crianças americanas, e os pais precisam verificar as prescrições de seus bebês "para esta droga. Além disso, embora os pesquisadores dizem que mais estudos são necessários, eles não significam que eles possam chegar a um resultado diferente. Eles simplesmente sugerem que eles vão repetir o experimento e observar com exatidão os efeitos da Ritalina no cérebro.

Fonte:
http://news.softpedia.com/news/Ritalin-and-Cocaine-Have-Identical-Effects-on-the-Brain-103929.shtml

domingo, 26 de setembro de 2010

Loucuras da psiquiatria

A Drapetomania

Foi um diagnóstico médico proposto em 1851 pelo Dr. Samuel A. Cartwright, um médico membro da Louisiana Medical Association, que exercia a sua profissão em Louisiana, nos Estados Unidos.
O termo drapetomania deriva do grego (drapetes, "um [escravo] fugido") + μανια (mania, "loucura, frenesi").
Este diagnóstico apareceu em um artigo publicado no New Orleans Medical and Surgical Journal, no qual o Dr. Cartwright argumentou que a tendência de fuga dos escravos na verdade se tratava de uma desordem mental que podia ser prevenida e tratada com altos índices de sucesso.
Especificamente, como prevenção e reversão deste quadro de transtorno mental, o Dr. Cartwright propôs chicotadas a escravos que pareciam carrancudos e insatisfeitos sem quaisquer motivos e também, presumidamente quando aplicável, que se efetuasse a amputação dos dedos dos pés dos pacientes.


Anarchia

Benjamin Rush "Pai da American Psychiatry", o seu retrato adorna o selo oficial da American Psychiatric Association, cunhou no início do século XIX, um diagnóstico interessante chamado "anarchia", uma "forma de loucura" que ele usou para rotular as pessoas que procuraram uma sociedade mais democrática, pois muitas pessoas no momento em que viveu Benjamin Rush estavam descontentes com a estrutura política dos Estados Unidos Membros - escravatura, voto restrito aos homens brancos propriedade, posse, etc.


Homossexualismo

Em 1973, grande pressão é feita pelos homossexuais sobre a Associação Americana de Psiquiatria para que ela suprimisse a homossexualidade do rol de doenças mentais, propondo chamá-la, a partir de então, de “uma forma natural de desenvolvimento sexual”.
A entidade, diante de tanta repercussão negativa, acabou reconhecendo o erro de catalogar a homossexualidade como doença e removeu-a de seu Manual de Diagnóstico e Estatística de Desordens Psiquiátricas.
A Associação Americana de Psicologia, por sua vez, terminou por declarar que a homossexualidade não era uma patologia em 1975.
Finalmente, em 1° de janeiro de 1993, a Organização Mundial da Saúde (O.M.S.) retirou a homossexualidade de sua lista de doenças mentais, uma grande vitória contra as idéias pré-concebidas, mas não propriamente contra o preconceito, que existe em função da crença que os homossexuais detêm uma opção de escolha e que só é homossexual quem quer.
A decisão se baseou, principalmente, no fato de que não foi provada qualquer diferença existente entre a saúde mental de um indivíduo heterossexual e a saúde mental de um homossexual.

domingo, 19 de setembro de 2010

Ritalina está vinculada a um aumento de 500 % para risco da morte súbita em crianças

Quão perigosas são as drogas estimulantes
anfetamínicas prescritas para crianças com o tão chamada déficit
de atenção e hiperatividade?

De acordo com pesquisa científica
subsidiada pelo FDA e pelo Instituto Nacional de Saúde Mental,
substâncias como a Ritalina aumentam o risco de morte súbita em
quinhentos por cento entre crianças e adolescentes.

Nestes casos de morte súbita, a criança repentinamente desacorda
e vem a morrer, e somente será descoberta mais tarde pelos pais
ou irmãos. É isso que aconteceu com Matthew Hohmann em 2004
(Conheça esse assunto), E de acordo com esta nova pesquisa, isso
se mantém ocorrendo para cada vez mais crianças em uma taxa
que é 500 por cento mais elevada do que seria considerada típico
para crianças com uma idade e condição de saúde semelhante.

Tdah droga como a Ritalina são, obviamente, estimulantes
anfetamínicos. Eles costumavam ser vendidos na rua como
"entorpecentes" mas agora eles são prescritos por psiquiatras para
crianças depois do subjetivo diagnóstico de uma doença fictícia:
Tdah - uma "desordem" que não tem nenhuma evidência biológica
mensurável.

De forma curiosa, o FDA proibiu ephedra, um estimulante herbário,
depois que um punhado de consumidores morreu por consumir
quantias enormes da erva por um esforço desesperado para perder
peso. Naquele caso, ao proibir a erva, o FDA anunciou "os riscos
excedem as vantagens dos benefícios," declarando que "ephedra
não seria seguro em qualquer dose."
Em grande contraste a isso, mesmo quando crianças literalmente
estão caindo mortas depois de tomar medicamentos para DDHA, o
FDA está agora insistindo "os benefícios superam os riscos."

Mas sobre que benefícios, exatamente, eles estão falando? Não
existe nenhum estudo científico confiável que demonstre que as
drogas para Tdah como a Ritalina tenham qualquer efeito
positivo a longo prazo para crianças. De fato, os estudos
disponíveis mostram que as drogas anti Tdah retardam o
crescimento físico de crianças ao mesmo tempo que prejudicam o
desenvolvimento do cérebro.

As crianças que tomam estas drogas,
em outras palavras, não estão meramente com uns 500 por cento
de aumento do risco de morte súbita; eles são praticamente
assegurados que serão retardados em seu desenvolvimento físico
e cerebral, por essa perigosa droga estimulante anfetamínica.

Os únicos benefícios reais para esses medicamentos anti Tdah, no
final de contas, são os benefícios financeiros para as companhias
farmacêuticas. Com as centenas de milhões de doses dessas
drogas sendo vendidas ao redor do mundo, a cada ano, a Big
Pharma (conjuntos das grandes empresas farmacêuticas) estão se
banhando em dinheiro com seus lucros enquanto crianças estão
jazendo mortas em suas próprias casas.

Então enquanto o FDA afirma que "os benefícios valem a pena sobre os riscos”, o que eles querem dizer é que os benefícios financeiros para as companhias
farmacêuticas são mais valiosos que os riscos para as vidas das
crianças. Produtos farmacêuticos posam como perigo iminente para nossas
crianças

Quando pais levam suas crianças para psiquiatras e são informados
para colocá-los sob o uso de produtos como a Ritalina, a maioria
dos pais acredita no que os médicos dizem. Eles acreditam que o
FDA não aprovaria uma droga tão perigosa, que poderia matar seu
filho sem aviso prévio. E eles acreditam que as companhias
farmacêuticas nunca venderiam produtos que prejudicassem
pessoas.

Mas tais convicções são tolas. Na realidade, o FDA, as companhias
de medicamentos e os psiquiatras estão todos trabalhando em
conluio, conscientemente empurrando drogas perigosas, mortais
sobre famílias com o propósito exclusivo de lucros geradores.
Enquanto crianças sofrem e morrem, eles tirar bom proveito da
ilusão da Tdah, primeiro promovendo uma doença fictícia e então
mais tarde pelos altos lucros de um charlatanismo farmacêutico.

E ainda, incrivelmente, a mídia popular não diz nada. Os senadores
e congressistas permanecem mudos. Psiquiatras corruptos,
desonestos, mantêm-se empurrando as pílulas goela a baixo e
farmacêuticos continuam enchendo os frascos, enquanto crianças morrem, dia após dia, pelo uso dos medicamentos que teriam sido indicados como uma forma de ajudá-las.
A medicalização em massa de nossos próprios filhos
é o maior crime não elucidado de nosso tempo.

A medicalização em massa de nossos próprios filhos é o maior
crime não elucidado de nosso tempo. É o holocausto químico dos
dias atuais sendo perpetrado pelo nosso próprio sistema de saúde!
Hoje, a indústria farmacêutica opera como uma associação
organizada de drogas, inventando doenças fictícias, para então
capitalizar com os "tratamentos" para tais doenças embora os
tratamentos em última instância prejudicam muito mais pessoas do
que elas concebivelmente ajudariam.

Para impulso adicional a seus lucros, as companhias de medicamentos oferecem testes gratuitos(free "screening") – baseados em uns questionários totalmente não
científicos, suficientemente equipados para rotular virtualmente todo
mundo como Tdah (adultos incluídos).

O cenário geral do Distúrbio de Déficit de Atenção e Hiperatividade
Tdah, é um circo de “junk” ciência (ciência podre), corporações lucrativas e traição do FDA. Se isso não fosse tão trágico e mortal, seria absolutamente cômico. Mas ao final,infelizmente, o envenenamento químico em massa de nossas crianças continua hoje, e aqueles que lucram continuam a chamar isto de "tratamento".

Por Mike Adams
Editor do Natural News

Ritalina nelas!

Em 1984 traduzi um texto mostrando os malefícios da ritalina, um "remédio que me ajuda a ficar bonzinho", segundo uma criança que tomava a droga.

Já no Brasil a RITALINA abunda. É ritalina em crianças, em jovens, sobretudo nos mais pobres e negros.

Pois não é que hoje, sábado, logo de manhã, a S*, uma mãe com Aids que mora aqui perto de meu bairro passou por aqui para me pedir trabalho. Ela e o marido estão com Aids. Moram no Quebec. Não no Canadá, aqui mesmo em um bairro pobre. Conversamos e ela me mostrou a receita do filho: ele toma ritalina. S* não sabe o que é ritalina.

A orientadora da escola (ele tem 7 anos) enviou uma carta para a médica J. Y. e esta lhe deu ritalina. Descobri que quase todos os meninos da escola M. V. tomam ritalina. A ritalina é uma droga para aqueles que têm "deficit de atenção".

Ora, ora, todos os meninos da escola têm deficit de atenção? Se todos têm deficit de atenção, ou todos os pobres e negros nascem com deficit de atenção ou o deficit é da orientadora da escola. Bem, é claro que tem barulho aí. Tenho que ir procurar o que acontece naquela escola e ir ao Ministério Público. Ou aceitar o lema: com pobre e negro só ritalina!

Marta Bellin
http://blogdamartabellini.blogspot.com/

sábado, 18 de setembro de 2010

A que servem os novos estudos do cérebro?

Vamos comentar aqui dois estudos do cérebro recentemente publicados no meio científico, em Londres e EUA. O primeiro afirma que a revolução digital remodela o funcionamento do cérebro, e o segundo, que a puberdade atrapalha o aprendizado, propondo então uma droga para a cura do “problema”.

Estudo 1: Revolução digital remodela funcionamento do cérebro

Noticiado pela internet, esse estudo da University College de Londres é, sem dúvida, bastante questionável. Como boa parte desse tipo de pesquisa, uma série de fatores parece não ter sido contemplada. Quem seriam os 100 sujeitos voluntários que tiveram seus cérebros investigados? Qual a origem, a história de vida, a formação cultural, em que contexto social se encontram? Teria essa amostra um número suficiente para conclusões tão assertivas/definitivas?

Bem, na verdade, estamos aqui propagando uma informação veiculada na internet, que tem a tendência de simplificar os conteúdos. Talvez a pesquisa não tenha incorrido em equívocos tão básicos... Mas ainda que tenha, não deixa de tocar em questões que merecem atenção.

Uma delas diz respeito à desenvoltura com que os mais jovens vasculham a internet em busca de informações, pulando de um site a outro sem dedicar muito tempo aos assuntos abordados. Segundo os estudiosos ingleses, isso seria indicativo de uma remodelagem cerebral que já acomete a nova geração, conclusão que acaba levando muitos a suporem que seria essa a causa de certa aversão aos livros de forma geral, e em especial àqueles com maior número de páginas.

Nem precisaríamos de uma pesquisa nesses moldes para concluir que grandes mudanças na maneira de ser e estar no mundo estão em curso, obviamente muitas delas determinadas pelas novas tecnologias de comunicação das quais nos tornamos, cada vez mais, consumidores vorazes. Que isso afeta nossos circuitos cerebrais também não chega a ser uma novidade. E que os mais jovens cada vez leem menos ou procuram textos mais curtos, deixando para trás os clássicos da literatura, também é preocupação constante de pais, educadores, tendo sido, inclusive, abordada recentemente pelo jornalista Daniel Piza em seu blog

O problema é fazer um pacote de tudo isso e, apressadamente, traçar relações de causa e efeito simplistas.
Vamos por partes.
É fato que as crianças lidam com instrumentos da nova tecnologia cada vez com mais facilidade. Não há família em que não haja, ao menos, uma que explique com desenvoltura o funcionamento de um novo aparelho eletrônico. Do celular ao laptop, lançam-se a desvendar seus mecanismos, sem medo de ousar. Arriscamos afirmar que a ausência de medo e, por que não dizer, a potência em aprender a lidar com esses aparelhos estão relacionadas às situações em que elas se encontram ao utilizá-los, que são, na maioria das vezes, bem sucedidas.

Em primeiro lugar, os adultos atribuem às crianças um papel social de destaque no uso dessa tecnologia. A relação de aprendizagem aparece, muitas vezes, invertida. É a criança que ensina, que tem o seu dizer valorizado pelo adulto. Essa parceria assim definida influencia positivamente na relação que ela estabelece com esse conhecimento, fazendo com que se aproxime cada vez mais dele.

Outro fator relevante é o fato de a criança ter seus objetivos mais imediatamente atingidos nessas situações, ainda que seus conhecimentos prévios sejam parciais. Vejamos, como exemplo, o uso do computador. Ainda que não tenha domínio da leitura e da escrita, a criança faz uso do que já sabe e também de outros recursos para atingir o que quer. Com muita facilidade, aprende como acessar os programas desejados na internet e, na hora de digitar, vê na cópia um recurso adequado. A aplicação de seus conhecimentos a leva a assistir vídeos, a jogar novos e diferentes games, a acompanhar seriados, campeonatos e a se comunicar com outras pessoas. Coisas que ela não conseguiria se dependesse apenas da leitura e da escrita em outro meio que não fosse o digital.

Talvez estejamos diante de um fenômeno, ainda em formação, que pode trazer consequências para a educação formal das crianças: a tendência de os mais jovens desenvolverem mais rápida e substancialmente seu letramento digital em detrimento de outros como, por exemplo, o escolar. Nesta perspectiva, talvez o mais importante não seja avaliar se o uso do computador está ou não remodelando o cérebro. Importante é constatar que as situações letradas em que há seu uso acabam sim por exigir determinadas posturas, habilidades e capacidades não exigidas ou favoráveis em outros contextos. Querer que um estudante iniciante, dentro do contexto escolar, leia um livro de x páginas, sem que isso tenha um sentido para ele, não é algo que se exija a priori. Isto será fruto de um trabalho, bem feito, na esfera escolar, que leve em consideração, inclusive, as capacidades dos aprendizes desenvolvidas em outros contextos.

Para os educadores, fica o dilema: como fazer com que os métodos de ensino correspondam um pouco mais a esse ritmo que vai sendo imposto na atualidade, mas sem perder a densidade necessária para formar pessoas com senso crítico, capazes justamente de lidar com esse bombardeio de informações?

Estudo 2: Puberdade atrapalha o aprendizado, e cientistas propõem droga para curar o “problema”

Também neste estudo há muito a ser questionado em termos de procedimentos: o mecanismo celular que, segundo conclusão dos cientistas, afetaria a capacidade de aprender dos adolescentes, até o momento, só foi demonstrado em camundongos teens, os quais teriam sido submetidos a “atividades de aprendizado”.
Mickey Mouse e, mais recentemente, o simpático ratinho do filme Ratatouille, Remy, são de fato referências fundamentais para compreendermos o comportamento humano... talvez porque, a exemplo das fábulas, tenham sido justamente humanizados por seus criadores.

Bem, no caso desta pesquisa, temos o contraponto disso: adolescentes humanos tratados como roedores! Quais teriam sido as atividades de aprendizado propostas aos ratinhos de laboratório? Qual a concepção que esses cientistas têm sobre o ato de aprender? Talvez tenham avaliado a capacidade de descobrir o mecanismo de funcionamento de uma ratoeira...
Mas, segundo a reportagem (Folha de S. Paulo, 19/03/2010), esses estudiosos americanos “já sabiam” que “a puberdade afeta a capacidade de aprender”, prejudicando a memória linguística, o que leva a concluir que só até 10/12 anos é possível ensinar coisas básicas às crianças. Talvez algo como abrir a lata de biscoitos para conseguir um queijinho, ou melhor, um biscoitinho...

Como resolver o “problema”? Simples: com uma dose extra do hormônio ligado ao estresse e à motivação (THP), aplicada no hipocampo dos “animais”. Assim, nossos adolescentes selvagens voltariam a “aprender bem” e todos poderiam comemorar, felizes: pais, professores e, claro, a indústria farmacêutica!

Mas, para alívio, ainda que parcial, a própria cientista que encabeça a pesquisa discorda da ideia de que “a puberdade seja um ‘problema’ que requer ser tratado”. Podemos então respirar aliviados? Sua descoberta foi só uma brincadeira de laboratório que, no máximo, vai causar protestos indignados de alguma sociedade protetora de animais, preocupada com a ética entre roedores? Infelizmente não: a investigação continua
"Não seria uma boa ideia tratar crianças ou adolescentes em geral com uma droga assim, mas algumas crianças têm mais dificuldade de aprender, e nelas o deficit de aprendizagem da puberdade é pior. O ideal seria desenvolver uma droga mais seletiva." Vejam: crianças com “dificuldades de aprender”, para essa cientista, fatalmente, pioram na adolescência.

Não há como escapar.
Sejamos justos, porém, com a pesquisadora. Questionada sobre a possibilidade de a nova droga ser tão controversa quanto a ritalina – droga da obediência hoje receitada sem escrúpulos, ela criticou essa conduta dos colegas, advertindo que o resultado de sua investigação não se aplica aos adolescentes normais...

Como dissemos, inúmeros são os questionamentos que põem em evidência a validade desse tipo de investigação. Quais os parâmetros para definir normalidade? Qual a situação de aprendizagem a que as cobaias, humanas ou não, são “submetidas” durante as testagens? Contexto sociocultural, história de vida e inúmeras outras variáveis que determinam modos particulares de apreensão de conhecimentos mais uma vez são desprezados em prol de uma suposta neutralidade científica. O que os pesquisadores se esquecem é que também eles avaliam suas cobaias a partir de parâmetros, ideologias, modos de pensar social e historicamente determinados, posicionamentos políticos e éticos. Não há, pois, neutralidade, em especial quando o tema é aprendizagem humana, com toda sua riqueza e complexidade.

Ambas as pesquisas nos remetem a essa temática e às formas como a sociedade contemporânea tem, cada vez mais, solapado essa complexidade.
Um dos sinais de que não estamos sabendo responder às novas formas como crianças e adolescentes se envolvem em situações de aprendizagem é, justamente, a proliferação do diagnóstico de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade – TDAH, já abordada aqui no site (cf. nas seções mito ou verdade e reflexões, aba profissional).
Será que a “perda da capacidade de atenção” que caracteriza esse quadro clínico pode ser, na atualidade, considerada uma “doença neurológica”? Se o cérebro dos mais jovens já está sendo afetado pelas novas demandas sociais é difícil dizer - serão necessárias muitas outras pesquisas, mais consistentes. Mas não há como negar que, como já ressaltamos, desde cedo, as crianças estão sendo solicitadas a participar de situações sociais dinâmicas, recheadas de sons, imagens, discursos apresentados simultaneamente. É quase impossível não corresponder a esses estímulos!

Ambas as pesquisas, com todos os seus equívocos e inconsistências, podem então servir como um alerta: precisamos prestar atenção ao fato de que não há esse número absurdo de desviantes, de crianças e adolescentes doentes como muitos especialistas e mesmo educadores têm propagado.
Antes de distribuirmos diagnósticos que tem levado à medicalização da infância e adolescência (cf. http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/), com remédios como Ritalina sendo prescritos sem pudores e sem uma avaliação criteriosa e ponderação sobre os riscos que trazem, prestemos atenção ao papel que nós, os mais velhos, temos desempenhado na contemporaneidade.

O que temos feito, dentro e fora da escola, para que diferentes situações que envolvem aprendizado sejam significativas para os jovens? Que ambiente e cuidados temos lhes ofertado? Estamos conseguindo acompanhá-los e sustentá-los em suas angústias e questões, próprias de cada momento do processo de amadurecimento pessoal?
No caso dos adolescentes, as tão propagadas crises não podem ser vistas como patológicas e, portanto, não devem ser “curadas” – sem elas, algo significativo se perde, e não só para meninos e meninas. Para nós adultos também. Buscar medicamentos para torná-los obedientes significa um empobrecimento também de nossas possibilidades de transformação. Quem vai apontar nossas falhas, questionar nossas ações, cobrar a autenticidade de nossos gestos e palavras? E mais: com quem vamos nos confrontar?

Todos nós, familiares, educadores, terapeutas necessitamos desse rico e conflituoso convívio com adolescentes desafiadores, intransigentes, precisamos sinalizar disposição para esse confronto com a autoridade que representamos, sem perder de vista a empatia e abrindo campo para que possam contribuir, genuinamente, para a reinvenção do futuro.

Claudia Perrotta e Lucia Masini
http://www.ifono.com.br/

Medicar na aprendizagem: vale a pena correr esse risco?

Dizem que o remédio é bom; só causa certa dependência, mas qual o problema?
Ruy Castro, em 10/04, escreveu sobre o tema em sua coluna na Folha de S. Paulo. Conta ele que uma conhecida sua, alta funcionária de uma empresa, passaria por uma avaliação para ser promovida no emprego. Decidiu, então, usar o mesmo remédio que o filho vinha tomando, para ficar alerta durante essa avaliação. Trata-se da já “famosa” Ritalina, usada para combater o "transtorno de deficit de atenção e hiperatividade" (TDAH).

Só então essa mãe se deu conta dos efeitos desse medicamento, diariamente consumido por seu filho: mais do que alerta, “a mulher de 40 anos, mestrado na Sorbonne, leitora de Barthes e Foucault” ficou “clarividente, eufórica, confiante, poderosa”. E, ainda, abatida pela abstinência, quando passou o efeito da dose única. Lembra o jornalista que “Ritalina é um estimulante do sistema nervoso central. Produz o mesmo efeito que a cocaína, as meta-anfetaminas, as "bolinhas" e outras drogas legais e ilegais. A bula adverte sobre a ocorrência de insônia e perda de apetite, recomenda o uso combinado com antidepressivo e menciona a possibilidade de o "abuso" levar à tolerância e à dependência”.
Essa situação, na verdade, um mero acaso, nos leva a pensar em sua gravidade.

Vejamos.
Durante um bom tempo na infância, os pais costumam experimentar comidas, líquidos e guloseimas antes de ofertá-los aos filhos. Querem avaliar o gosto, a consistência, a temperatura, para se certificarem de que o alimento não vai causar nenhum dano a eles. Ora, o mesmo deveria ser feito com os remédios que são receitados para as crianças?

A bula da Ritalina, e também do Concerta, usado para a mesma função, de fato avisam:
ATENÇÃO: PODE CAUSAR DEPENDÊNCIA FÍSICA OU PSÍQUICA
VENDA SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA. "SÓ PODE SER VENDIDO COM A RETENÇÃO DA RECEITA"
Só isso já seria um alerta e tanto para os pais buscarem uma segunda e terceira opiniões sobre o uso desse medicamento em crianças em pleno processo de formação física, psíquica e social. Mas, angustiados com a situação escolar de seus filhos, muitas vezes, sentindo-se impotentes diante de especialistas, veem no remédio a salvação de todos os problemas, pois, de fato, a mudança comportamental é visível logo nas primeiras dosagens. Assim, é comum encontrarmos pais que defendam o uso destas drogas e classifiquem a atitude de quem questiona essa medicalização como irresponsável.

É compreensível, porque é muito desesperador ver seu filho sofrer por não conseguir acompanhar o ritmo de aprendizagem escolar. Entretanto, é importante ressaltar que a Ritalina age, fundamentalmente, sobre o comportamento, o que não significa que contribua para uma aprendizagem efetiva. Muitas vezes, o que temos são crianças e adolescentes apáticos, submetidos, sendo esse “novo” comportamento visto por professores e pais como um sinal de melhor condição para o aprendizado. Não é.
Impor a essas crianças e adolescentess que sigam no processo de aprendizagem via medicalização nos faz perder a possibilidade de compreender o que estão nos comunicando sobre suas angústias e inseguranças em relação à condição de aprender, e crescer.
Esse assunto merece nossa atenção... E por um tempo bem maior do que aquele atingido com uma dose de Ritalina.

29/04/2010
Lucia Masini e Claudia Perrotta

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Para o Cremesp, um terço dos médicos mantém uma "relação contaminada com a indústria farmacêutica e de equipamentos, que ultrapassa os limites éticos"

Quase metade (48%) dos médicos paulistas que recebem visitas de propagandistas de laboratórios prescreve medicamentos sugeridos pelos fabricantes.

Na área de equipamentos médico-hospitalares, a eficácia da visita é ainda maior: 71% dos profissionais da saúde acatam a recomendação da indústria.

Os dados, obtidos com exclusividade pela Folha, vêm de uma pesquisa inédita do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de SP), que avaliou o comportamento médico perante as indústrias de remédios, órteses, próteses e equipamentos médico-hospitalares.

Feito pelo Datafolha, o levantamento envolveu 600 médicos de várias especialidades, que representam o universo de 100 mil profissionais que atuam no Estado.

Do total, 80% deles recebem visitas dos propagandistas de medicamentos -em média, oito por mês.

A pesquisa revela que 93% dos médicos afirmam ter recebido, nos últimos 12 meses, produtos, benefícios ou pagamento da indústria em valores até R$ 500.

Outros 37% declaram que ganharam presentes de maior valor, desde cursos a viagens para congressos internacionais.

RELAÇÃO CONTAMINADA

Para o Cremesp, um terço dos médicos mantém uma "relação contaminada com a indústria farmacêutica e de equipamentos, que ultrapassa os limites éticos".

"Para boa parte [dos médicos], a única forma de atualização é a propaganda de laboratório. E com ela vem os presentes, os brindes. Isso tomou uma dimensão maior, mais promíscua, quando as receitas passaram a ser monitoradas", diz Luiz Alberto Bacheschi, presidente do Cremesp.

Em 2005, a Folha revelou que, em troca de brindes ou dinheiro, farmácias e drogarias brasileiras auxiliavam a indústria de remédios a vigiar as receitas prescritas por médicos.

Com acesso a cópias do receituário, representantes dos laboratórios pressionavam os profissionais a indicar seus produtos e os recompensavam por isso.

A prática não é ilegal, mas é considerada antiética. Afinal, quem pode pagar essa conta é o paciente. "Na troca de favores, o médico pode receitar um medicamento que tenha a mesma eficácia clínica do que o concorrente, mas que custa mais caro", explica o cardiologista Bráulio Luna Filho, coordenador da pesquisa do Cremesp.

APOIO

A maioria dos médicos (62%) avalia de forma positiva a relação com a indústria.

Para 73% deles, os congressos científicos não se viabilizariam sem apoio da indústria de medicamentos e de equipamentos.

Luna Filho pondera que, com a internet, o acesso a informações médicas está universalizado. "Essa conversa de que médico tem que ir para congresso no exterior para se atualizar é balela. Ele vai é para fazer turismo."

Existem várias normas -inclusive um artigo no novo Código de Ética Médica, uma resolução da Anvisa e um "código de condutas" da associação das indústrias- que tentam evitar o conflito de interesses na relação entre médicos e laboratórios.

"O problema é que não existe um controle rigoroso de nenhuma das partes", diz Volnei Garrafa, professor de bioética da UnB.


Sala de Imprensa
Cremesp na Mídia
Folha de São Paulo, 31/05/2010
CLÁUDIA COLLUCCI DE SÃO PAULO

Texto original: http://www.cremesp.org.br/pdfs/pesquisa.pdf

segunda-feira, 24 de maio de 2010

As drogas farmacêuticas e as mortes que provocam

Existem, nos EUA, inúmeros acidentes provocados por jovens sob a influência de drogas farmacêuticas, legalmente comercializadas e prescritas por médicos.

Ed Harris, de Columbine High, estava sob o efeito de Luvox quando matou 12 colegas e seu professor, em Denver, no Colorado.
Kip Kinkel, de Springfield, no Estado do Oregon, estava diminuindo progressivamente o uso de Prozac quando matou 24 de seus colegas de classe, bem como membros de sua família.

Shawn Cooper, de Notus, no Estado de Idaho, tinha 15 anos e tomava Ritalina quando atirou em seus colegas na escola. Elizabeth Bush tinha 14 anos e tomava Prozac quando atirou nos alunos, seus amigos e feriu um deles em Williamsport, na Pensilvânia.

T. J. Solomon, tomava Ritalina, quando matou 6 colegas em Conyers, na Georgia.

Jason Hoffman tomava Effexor e Celexa, quando feriu 5 colegas de seu colégio, na Califórnia.

Cory Baadsgaard tomava Paxil, quando pegou uma espingarda e fez 23 alunos de reféns, antes de ser desarmado pelo diretor. Ele não guardou nenhuma lembrança desse episódio e passou os quatorze meses seguintes em um centro de detenção para jovens.

Algumas vezes, esses jovens voltam essa violência contra si próprios. Assim, Julie Woodward morreu aos 17 anos, depois que um terapeuta lhe disse que Zoloff era “necessário para sua cura e muito benigno”. Tão benigno que, no sexto dia do tratamento, seus pais encontraram seu corpo pendurado na garagem.

Em 10 de fevereiro de 2004, Traci Johnson, uma jovem estudante de 19 anos de Bensalem, também se enforcou, enquanto participava dos testes sobre a principal substância do Cymbalta. Esse medicamento, estudado pelo laboratório Lilly para tratar a depressão e a incontinência urinária devida ao stress, estava prestes a obter a aprovação do FDA.

Após seis dias de tratamento para depressão com Zoloff, um menino de 13 anos suicidou-se. Entretanto, o tribunal de Kansas achou que não havia provas suficientes para ligar o drama ao Zoloff.
Essa lista não é exaustiva e só reflete uma parte ínfima de situação nos Estados Unidos.

Se qualquer um desses acidentes tivesse sido provocado por drogas proibidas, o mundo inteiro teria acusado os traficantes e os revendedores de drogas como a cocaína, o LSD, as anfetaminas e a maconha. Mas, como os medicamentos foram prescritos por médicos ou psiquiatras respeitáveis, fabricados por laboratórios de prestígio, preferimos ignorar essas “poucas mortes acidentais” que procura-se, muitas vezes, manter no anonimato.

É bem mais simples, considerar que esses jovens são os únicos responsáveis por esses atos e que a violência é um flagelo crescente, mas inevitável. E, de qualquer maneira, esses jovens são os únicos a pagar. Os laboratórios e os médicos — que preferem ignorar os efeitos deletérios dos medicamentos que prescrevem — conseguem sempre se safar com honras de guerra e, se são algumas vezes considerados responsáveis, nunca são julgados culpados.
Sylvie Simon

Fonte: Votre Santé n° 63 – dezembro de 2004

sábado, 22 de maio de 2010

O professor está doente?

Esse artigo procura discutir a dimensão política do sofrimento docente a partir da reflexão sobre a banalização do uso do termo “Síndrome de Burnout”, amplamente divulgado em outdoors e cartilhas pela cidade do Rio de Janeiro. Essa propagação do discurso médico e de categorias patológicas para o senso comum produzidas na contemporaneidade, conforma um sintoma de uma época onde individualizamos a existência, patologizamos os conflitos e o remediamos, conferindo legitimidade e ampla aceitação de um processo político de medicalização da vida social.

Recentemente pudemos ver propagados pela cidade do Rio de Janeiro cartazes, outdoors e cartilhas do Sindicato dos Professores (Sinpro) incentivando os professores a identificarem, tratarem e prevenirem a Síndrome do Burnout. Segundo diz a cartilha, essa categoria psiquiátrica se caracteriza pelo estresse crônico, desânimo e desmotivação no trabalho, entre outros sintomas. Mas devemos perguntar: o professor está doente? Será o sofrimento do professor uma Síndrome? Do que sofre o professor? De que professores estão falando? Todos os professores sofrem do mesmo mal?

Quem vive o cotidiano escolar e acompanha a realidade dos profissionais da educação de forma geral, percebe que a cada dia uma nova patologia é trazida para o universo da escola. Nos corredores e salas de aula estamos ouvindo novos nomes e incorporando modismos. E quais são essas doenças que encontram lugar no no espaço escolar?
Porque encontram lugar tanto nos professores quanto nos alunos? É inquietante constatarmos o número crescente de crianças que recebe algum tipo de diagnóstico. Destaca-se o de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade.

Podemos dizer que este diagnóstico tem se alastrado de forma generalizada e implica, entre outras coisas, na medicalização das crianças que são nomeadas por ele. No entanto, não são apenas as crianças diagnosticadas com TDA/H que são medicalizadas. O raio de crianças submetidas a medicalização diz respeito a uma série de outros diagnósticos. As antigas engrenagens subjetivas mudaram e o que fazia alguém ser irrequieto, levado, impulsivo ou calmo, dá lugar a uma nova imagem para esses atributos que, se atualiza nos diagnósticos de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, entre outros.

Essa lógica cientificista e biologizante, que vem pautando nossas vidas, responsável pela naturalização de diversas práticas sociais, apartam do cotidiano a dimensão das produções de subjetividade, quando é exatamente no cotidiano que essasproduções se fazem presentes.

O momento em que vivemos, articulado pela descoberta de novas tecnologias, pela emergência das neurociências, traz a possibilidade de prolongamento da vida das pessoas e a promessa de redução de seus sofrimentos. Estas inovações tecnológicas, aliadas da lógica do consumo e interiorizadas no sujeito, atravessam as ciências médicas de forma crucial.

Ganha amplitude no senso comum quando podemos escolher o nosso corpo, colocar e retirar pedaços dele, corrigir supostos defeitos. E também quando, através de medicamentos, controlamos nosso padrão de atenção, nossos impulsos, nossas ansiedades, nossos medos. Ou seja, como corrigimos nosso corpo, corrigimos nossos modos de existência de acordo com um padrão que, de natural, não tem nada.

Vivenciamos um momento de individualização, de auto centramento e de isolamento exacerbado. E assim, como as crianças são remediadas em relação aos problemas que são identificados nelas, os professores também compartilham da mesma lógica medicalizante.

Nos deparamos com a individualização das demandas, desejos, anseios, problemas e responsabilidades. Por que a nossa sociedade tem se organizado desta forma? Por que estamos abrindo mão da organização em coletivos? Como a escola serelaciona com essa realidade? Que efeitos esse tipo de organização gera nos profissionais da escola?

A fluidez dos coletivos e organizações leva a um sentimento de não pertencimento, de isolamento, de exacerbação dessa individualização, um forte distanciamento em relação à diferença e a incapacidade de entendimento do que se passa com o outro. Suas conseqüências se refletem na forma como nos relacionamos e estabelecemos vínculos com as pessoas que nos cercam e em contrapartida em um forte sentimento de solidão.

O mundo do trabalho sofre alterações pautadas por uma política que elege um modelo de “competências individuais”. O espaço escolar valoriza enormemente as competências e busca ressaltá-las em seus alunos. Os professores buscam modelos de competência em sua própria prática docente. Discutir o sofrimento docente passa por perceber o professor como trabalhador desse tempo e inserido nas discussões pertinentes a sua categoria.

Compreendendo que seu possível sofrimento está vinculado a sua realidade social e política. Não é possível falar do sofrimento docente sem ouvir do professor o que o faz sofrer. E ao ouvirmos percebemos que esse sofrimento está diretamente relacionado às condições de trabalho e ao seu contexto social.
Para trazer contribuições para essa discussão procuramos uma pesquisa realizada com professoras da rede pública. A pesquisa “Precarização do trabalho, subjetividade e saúde na escola pública: a dor e a delícia de ser professora” de Mary Yale Rodrigues Neves da Universidade Federal da Paraíba fala sobre o prazer e o sofrimento no trabalho do professor.

Ela enumera os fatores que incidem sobre o sofrimento das professoras, são eles: as relações hierárquicas, a longa e exaustiva jornada de trabalho (com crianças), a dificuldade de operar o “controle de turma”, os baixos salários, a contaminação das relações familiares e, principalmente, a progressiva desqualificação e o não reconhecimento social de seu trabalho.

Como os professores de um determinado coletivo lidam com as dificuldades e o sofrimento trazidos pelo seu cotidiano? E com o prazer que também pertence a esse espaço? A partir desse entendimento é possível construir saúde ao invés de ficar apenas no registro da doença e remediando os problemas que aparecem. É possível atuar sobre o que agrega sofrimento.

No caso da categoria de professor, esse enfrentamento não pode acontecer desvinculado do cotidiano escolar, da problematização coletiva do trabalho realizada pelos seus atores, rompendo com o isolamento e a individualização e construindo no processo de trabalho formas de luta que interfiram tanto nos conflitos mais singulares que são vividos no dia a dia da escola, quanto na dimensão das políticas educacionais e na realidade da educação hoje.

Portanto, se o professor sofre as transformações que se relacionam diretamente ao trabalho que executa, nos cabe indagar que prática é essa que vem responsabilizando o professor por anos de sucateamento e precarização da Educação? Ao afirmarmos que os professores estão sofrendo de uma Síndrome deslocamos a discussão das condições de trabalho e justificamos as atuais políticas educacionais.

Assim, nós psicólogos atendemos individualmente a demanda, muitas vezes já medicalizada e deixamos de atuar no sentido amplo de problematizar de que sofrimento estamos tratando. Apenas remediamos e aplacamos temporariamente a dor. As discussões acerca da velocidade dasdemandas, do excesso de trabalho, da baixa remuneração, do desgaste físico, do estabelecimento de metas, produtividade, mercado e competitividade saem de cena.

O adoecimento do professor é produzido na intersecção de múltiplos vetores. Portanto, demanda diversas perspectivas de análise que interroguem sobre as forças que concorrem e se afirmam na fabricação do professor estressado, deprimido, desvitalizado, despotencializado, do “professor adoecido”. Ao individualizarmos questões políticas no corpo do sujeito, estimulamos a medicalização e a construção de uma subjetividade marcada por rótulos, com efeitos de afastamento do trabalho entre outros.

Se o sofrimento docente for percebido como uma questão de saúde e não de doença, podemos construir outras modalidades de enfrentamento que não seja a medicalização. Ao invés dessa problematização encontramos a justificativa para o adoecimento do professor se localizando em uma categoria patológica, que através da legitimidade do discurso médico ganha corpo e se propaga indiscriminadamente em outdoors.

Depois de uma reflexão mais consistente sobre o sofrimento docente podemos então tentar entender o que estão chamando de Síndrome do Burnout. Assim, não corremos o risco precoce de transformarmos em verdade absoluta inquestionável essa “nova terminologia” que, como um modismo, entrou para o dia a dia das escolas públicas e particulares.

Para tal, buscamos na literatura médica, responsável pela sua construção como categoria patológica, um pouco de sua história e desenvolvimento. “Criado na década de 70 por Maslach, o conceito de Burnout, apesar de algumas críticas iniciais, foi rapidamente aceito e tem sido tema de inúmeros artigos científicos, livros e de apresentações em congressos de psicologia, psiquiatria e educação médica.

Tornou-se, assim, um conceito praticamente inquestionável. Porém, ao examinarmos atentamente suas três dimensões básicas, observa-se que todos os sintomas descritos, sem exceção, estão presentes na depressão. A psicopatologia nos ensina que o diagnóstico psiquiátrico não é feito pela descrição de uma lista de sintomas, algo que está tão em voga nos dias de hoje, nas inúmeras escalas diagnósticas, mas sim pela observação fenomenológica criteriosa que propicia a detecção de elementos que, juntos, nos permitem reconhecer uma determinada patologia.

Para isso, é necessária grande experiência clínica, algo que também não tem sido valorizado como deveria. O fato de o trabalho ser o fator desencadeante não justifica a criação de um novo conceito (grifos nossos). Caso contrário, a cada fator desencadeante descoberto, um novo diagnóstico seria criado, o que tornaria a classificação psiquiátrica um verdadeiro caos. (...) É preciso desfazer com urgência essa confusão, sob o risco de criarmos uma nova Babel”. (Millan, Luiz Roberto)

A leitura atenta e cuidadosa da citação acima, retirada da Revista da Associação Médica Brasileira, nos permite perceber que estamos de fato submetidos à hegemonia de um discurso médico, que associada às condições sociais dos trabalhadores, delineiam uma política de medicalização que retira o foco da organização coletiva trazendo a questão do sofrimento, diretamente vinculado ao trabalho, para uma dimensão individual da existência.

Assim, patologizamos os conflitos contemporâneos e os sofrimentos que surgem a partir deles. Mas deixamos de perceber o quanto esse mecanismo produz novas modalidades de exclusão social e controle subjetivo, ao contribuir para a construção de subjetividades adoecidas, individualizadas e despotencializadas.


Mariana Fiore
Psicóloga Clínica

segunda-feira, 26 de abril de 2010

El chico rotulado y el niño ideal. Por Beatriz Janin *

Lo que prima es la idea de exclusión social y de un futuro incierto. Frente a esto, suele aparecer la necesidad de resolver todo rápidamente, sin dar lugar a la duda. Ese niño debe acomodarse, ya, a lo que se espera de él, de modo que todos recuperemos la tranquilidad perdida. El chico rotulado y el niño ideal

Por Beatriz Janin *

La autora cuestiona los diagnósticos psicológicos o psiquiátricos por los que muchos chicos podrían ser “rotulados” con “sellos invalidantes”, e indaga, en las determinaciones de la sociedad y en las angustias de los profesionales, las causas de esta “violencia sobre los niños”.

Solemos pensar la infancia desde la idea que hemos construido, a lo largo de la propia vida, sobre lo que es un niño: representación forjada en base a la conjunción de lo que nos han transmitido, de las propias vivencias y de lo que la sociedad propone como modelo de niño. Pero esta representación de lo que se supone que debe ser un niño, de los niños ideales, choca contra los niños reales, de verdad, con los que nos encontramos cotidianamente. Y esto trae dificultades.

Un niño, en principio, es un sujeto en constitución que es parte de un mundo familiar, escolar, social. Y hay diferentes culturas, y diferentes espacios para el niño en cada cultura. Hoy existe una exigencia desmedida en relación a qué debería hacer todo sujeto en los primeros años de su vida. Así, se supone que debe poder incluirse en una institución a los dos años, debe aprender a leer y a escribir antes del ingreso a primer grado, debe soportar ocho horas de escolaridad a los seis años (a veces antes) y debe estar gran parte de esas horas quieto, atento y respetando normas.

Y no hay tiempo de juego. Suele haber espacios reglados para el juego, en momentos y espacios delimitados, pero no para jugar, libremente, solo o con quien se quiera jugar, sin adultos que reglen esa actividad.

Frente a esto son muchas las situaciones en las que los niños rompen lo esperable, rompen con ese ideal de niño.

Por otro lado, me parece que, en la época actual –que no es seguramente peor que otras pero tiene características específicas–, solemos lanzar a los niños a una excitación excesiva, sin sostén y sin posibilidades de metabolizar a través del juego lo que les pasa.

Esto determina ciertos funcionamientos que aparecen como patológicos y que no pueden pensarse sin tener en cuenta las condiciones familiares y sociales que los producen.

Así, ¿cómo entender que un niño repita las palabras de la televisión mucho antes que las de sus padres? ¿O que sean tantos los niños sobreexcitados, que hablan de sexo en términos pornográficos, aludiendo a imágenes vistas en Internet? ¿Cómo pensarlo sin tener en cuenta el exceso de “pantallas” en reemplazo a vínculos con otros?

Esto, en un mundo en el que los adultos también nos sentimos muy presionados, exigidos en exceso. Así, padres y docentes suelen suponerse fracasados si los hijos o los alumnos no cumplen con aquello que la sociedad demanda.

Hay una especie de enjuiciamiento mutuo, en el que tanto padres como maestros se suponen juzgados por el rendimiento del niño en la escuela.

Se podría decir que el narcisismo de los padres y de los maestros se sostiene en el éxito de los hijos o alumnos, a la vez que éstos constituyen su imagen de sí en el vínculo con esos adultos. Así, el fracaso escolar de un niño sea vivido como un terremoto que no deja nada en pie, en tanto es un golpe también para padres y maestros.

Lo que prima es la idea de exclusión social y de un futuro incierto. Frente a esto, suele aparecer la necesidad de resolver todo rápidamente, sin dar lugar a la duda. Ese niño debe acomodarse, ya, a lo que se espera de él, de modo que todos recuperemos la tranquilidad perdida.

“Trastorno generalizado”

Un niño está triste. Llora permanentemente, en la casa y en la escuela. Los padres se desesperan. Un profesional dice: “Es una depresión, hay que medicar”. Los padres dudan y hacen otra consulta. El niño quiere hablar. Cuando se lo escucha, manifiesta el temor a crecer y a separarse de los padres. Y, cuando revisamos su historia y hablamos de sus sueños, empieza a pensar salidas posibles, y deja de llorar todo el día. ¿Qué hubiese pasado si se lo medicaba rápidamente? ¿Cuántas cuestiones hubiesen quedado obturadas, sin resolver? ¿Qué dependencia hubiésemos creado y a qué lugar de niño problema (diferente del de un niño que presenta problemas en ese momento) lo hubiésemos encadenado?

En la niñez, un sujeto se va constituyendo como tal. Es una época de apertura de caminos y también de armado de repeticiones. Las identificaciones, los deseos, las normas y prohibiciones internas y los modelos se constituyen en esta etapa. Pero esa estructuración se da en relación a otros, que son los que libidinizan, otorgan modelos identificatorios, transmiten normas e ideales. Y son los que le devuelven al niño, como un espejo, una imagen de sí. Esta imagen constituye un soporte fundamental frente a los avatares de la vida. La posibilidad de quererse a uno mismo, de valorarse, tiene como fuente esa representación de nosotros mismos que nos fue otorgada durante los primeros años.

Esto hace muy necesario plantearse la responsabilidad que tenemos todos los que trabajamos con niños. Responsabilidad que se acrecienta cuando somos los que diagnosticamos, porque ¿cómo constituir el narcisismo si se ha puesto un sello invalidante?, ¿cómo sentirse valioso si se es rotulado y clasificado como portador de un “síndrome”? ¿Cómo investir libidinalmente el mundo y a sí mismo desde ese lugar de “menos”? ¿Cómo podrán los padres mirar a ese niño si lo que les devuelven es que es un “déficit de...” o un “trastorno generalizado...” o algún otro “trastorno”? En lugar de la esperanza, en lugar de ser alguien que va desplegando potencialidades, se es deficitario de entrada.

Y esto no impide reconocer que hay niños que presentan, tempranamente, problemas, algunas veces severos. Pero es muy diferente plantear que un niño tiene tales posibilidades y que, además, tiene tales conflictos, que pueden ir superándose, a sostener que fue y será siempre así.

Por ejemplo: Un niño de diez años es traído a tratamiento con el diagnóstico de ADHD (sigla en inglés para “trastorno por déficit de atención con hiperactividad”). Los padres lo describen como “insoportable”, tanto en la escuela como en la casa.

En el transcurso de la entrevista, me cuentan que fue adoptado a los cinco años, que hasta los dos vivió con su mamá y que a partir de allí estuvo en una institución. Pero, dicen, no se muestra agradecido sino desafiante, enojado con el mundo. Si un niño que fue separado de sus padres biológicos por maltrato, que pasó varios años institucionalizado, está peleado con el mundo, ¿será por un problema neurológico? ¿O habrá que ayudarlo a elaborar todo lo vivido impensable, esas marcas, vacíos, silencios, las huellas del dolor que dejó en él su historia? Y deberá entenderse que “ser agradecido” no es un don con el que se nace, sino resultado de un recorrido.

Es fundamental que se consulte tempranamente cuando un niño presenta dificultades, porque el trabajo en los primeros años de la vida puede impedir años de sufrimiento. Pero, también, el profesional que es consultado por un niño pequeño deberá tener en cuenta que los niños cambian, crecen, que un niño es un sujeto marcado por el contexto. Así, pueden abrirse caminos novedosos si se propician modificaciones tanto en el niño como en el entorno. He visto niños que no hablaban a los cuatro años y que no podían aprender a leer y a escribir a los seis y que a los catorce años –luego de años de tratamiento psicológico– tienen una vida social e intelectual semejante a la de cualquier niño (con algún año de retraso escolar en relación con la media o con dificultades puntuales, que también podrán ir variando).

René Kaës dice: “El grupo que nos precede, en particular algunos de sus miembros que son para el infans sus representantes, este grupo nos sostiene y nos mantiene en una matriz de investiduras y de cuidados, predispone signos de reconocimiento y de convocación, asigna lugares, presenta objetos, ofrece medios de protección y de ataque, traza vías de cumplimiento, señala límites, enuncia prohibiciones”. (Transmisión de la vida psíquica entre generaciones, ed. Amorrortu, 1996.)

Nadie se constituye como sujeto de un modo aislado, sino en el intercambio con otros que lo libidinizan, le transmiten normas e ideales, le dan modelos de identificación. Y si esos otros suponen que aquel que tendría que cumplir sus sueños es portador de un déficit, este golpe narcisista marcará el vínculo, el modo en que ese niño será mirado, las palabras y silencios que le serán dirigidos. Se pensará ya tempranamente en él como un discapacitado, mucho antes de darle tiempo a desplegar posibilidades.

Esto es particularmente difícil en una sociedad que tiende a mostrar el futuro como temible. En tanto los adultos estamos angustiados y temerosos en relación con el futuro (lo cual se acrecienta con la actual crisis mundial), les transmitimos a los niños las propias sensaciones de desvalimiento e incertidumbre.

Así, se les sugiere a los niños que, cuando sean grandes van a sufrir; se los amenaza con el crecimiento. En lugar del antiguo “Cuando seas grande vas a poder...”, se ha pasado a un amenazante “Cuando seas grande, ya vas a ver”. Y es bastante habitual que los niños digan: “No quiero crecer”; “Quiero seguir siendo bebé....”.
“¿No seré un...?”

Suele ocurrir que, cuando leemos la descripción de cualquier patología, en algún rasgo nos identificamos y, rápidamente, podemos suponer que “tenemos” tal o cual “cuadro”. La dificultad radica en que pasamos de la descripción sintomática, de lo que aparece, lo observable, a una definición totalizadora; una proposición descriptiva pasa a ser explicativa. Así, cualquiera que se busque en el DSM IV (Manual Diagnóstico y Estadístico de los Trastornos Mentales) se encontrará, en tanto termina enumerando casi todas las dificultades humanas. Es decir, termina siendo un catálogo de conductas.

Esto, que puede llevar a errores importantes cuando se hace con adultos, es mucho más grave cuando está en juego un niño (y en este caso son otros los que lo rotulan). Porque el rótulo se torna vaticinio y el futuro pasa a ser temible.

En un libro (patrocinado por un laboratorio farmacéutico) escrito por madres de niños diagnosticados con “trastorno por déficit de atención con hiperactividad”, una madre relata que el neurólogo, al darle el diagnóstico, le dijo que, si no se trataba bien, el niño podía “inclinarse al lado oscuro”; la madre le preguntó si eso implicaba que podría terminar en prisión, y la respuesta fue que sí. El testimonio de esta madre continúa: “Este temor, aún hoy, después de cinco años, me acompaña en más ocasiones de las que quisiera, por mí y sobre todo por mi hijo, pues soy consciente de que me bloquea y me genera una tensión continua, por intentar mirar con lupa cada paso que damos”.

¿Qué efecto puede producir en un niño que la madre esté permanentemente mirándolo, suponiendo que todo lo que ella y el padre del niño hacen debe ser calculado, porque el riesgo es que el niño termine en prisión? ¿Cómo marca esto los vínculos en esa familia?, ¿Por qué se insistirá en catalogar a los niños, en ubicarlos como deficitarios, ubicándose los profesionales desde un ya-sabido, desde certezas que los llevan a clasificar al otro casi sin conocerlo, perdiendo la singularidad?

Quizá porque pensar desde la complejidad y ubicar al otro como humano es difícil, en tanto angustiante, en tanto me puedo reconocer en el otro como semejante y en sus miedos y en sus dolores como cercanos. Y entonces se pueden borrar los límites entre un mundo de “sanos” y otro de “enfermos”. Todo se torna variable, las fronteras no son tan claras y quedamos, también los profesionales, expuestos.

Los niños nos exponen particularmente, porque nos recuerdan nuestros miedos infantiles, los dolores a los que no pudimos ponerles palabras, nuestros terrores, las pesadillas que ocupaban las noches y también las dificultades para movernos en el mundo tal como los adultos exigían.

* Directora de las carreras de especialización en psicoanálisis con niños y adolescentes de la UCES y de la APBA. Texto extractado del trabajo “De diagnósticos y tratamientos. Cuando la pastilla reemplaza a la palabra”.

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