quarta-feira, 28 de maio de 2008

Hiperatividade não é doença

terça-feira, 20 de maio de 2008

As novas criações da indústria farmacêutica e suas curas extraordinárias (Portuguese)

Essa tendência do mercado farmacológico para a massificação de moléstias preocupa um número cada vez maior de médicos e até de jornalistas, em geral coadjuvantes empenhados desse processo। Ele já foi chamado de medicalização da vida, mas hoje é conhecido de maneira mais pejorativa como ‘disease-mongering’ (algo como ‘apregoar doenças’, aqui traduzido por ‘fabricação de doenças’)। Há duas semanas, ganhou mais visibilidade com uma coleção de ensaios publicada no periódico científico de acesso aberto ‘PloS Medicine’ (medicine।plosjournals.org), três dezenas de páginas de ataque frontal às táticas de vendas das empresas farmacêuticas e aos médicos e jornalistas que se prestam a implementá-las.


Nem a escola escapou do marketing que mantém as empresas farmacêuticas como um dos ramos mais rentáveis da indústria, ainda que sua capacidade de inovação -medida pelo número de novos princípios ativos aprovados para comercialização- esteja em queda contínua। Para a epidemia de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) existe, felizmente, o metilfenidato, que professores, enfermeiros, médicos e até pais se alegram em ministrar a uma geração incontrolável। A nova moda, agora, é diagnosticar guris de até 2 anos de idade com transtorno bipolar (ex-PMD, psicose maníaco-depressiva, antes uma prerrogativa dos adultos) e tratá-los na base dos ‘estabilizadores de humor’।

Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) + Ritalina (metilfenidato) Depois da epidemia de diagnósticos de dislexia, a moda em matéria de medicalização do desempenho escolar passou a ser a TDAH, contemporânea da ascensão da Ritalina como remédio certo para a doença certa। Somente entre 1990 e 1995, multiplicaram-se por 2,5 nos Estados Unidos as prescrições da droga para crianças e jovens। No Canadá, por 5। Segundo Christine Phillips, da Australian National University, o envolvimento de professores na popularização do diagnóstico foi fundamental para a estratégia de marketing das empresas fabricantes, como a Novartis e a Shire, que patrocinam sites ‘educacionais’ na internet com seções dedicadas a educadores e enfermeiros escolares। A indústria também apóia financeiramente grupos de pressão como o norte-americano Children and Adults with ADHD


O termo ‘disease-monger’ foi criado em 1992 por Lynn Payer, relembra Leonore Tiefer, da Universidade de Nova York, em seu artigo para o dossiê da ‘PloS Medicine’। Payer também listou os dez mandamentos para a fabricação bem-sucedida de uma nova doença:

1.Tomar uma função normal e insinuar que há algo de errado com ela e que precisa ser tratada;

2. Encontrar sofrimento onde ele não necessariamente existe;

3. Definir uma parcela tão grande quanto possível da população afetada pela ‘doença’;

4. Definir a condição como uma moléstia de deficiência ou como um desequilíbrio hormonal;

5. Encontrar os médicos certos;

6. Enquadrar as questões de maneira muito particular;

7. Ser seletivo no uso de estatísticas para exagerar os benefícios do tratamento disponibilizado;

8. Eleger os objetivos errados;

9. Promover a tecnologia como magia sem riscos;

10. Tomar um sintoma comum, que possa significar qualquer coisa, e fazê-lo parecer um sinal de alguma doença séria.

.O ponto forte do dossiê da ‘PloS Medicine’, editado pelos australianos Ray Moynihan (jornalista, autor do livro ‘Selling Sickness’, ou ‘Vendendo Doença’) e David Henry (farmacologista clínico, fundador da página de internet Media Doctor, www।mediadoctor.org.au), é não poupar a imprensa como co-autora dessa obra de falsificação em massa. O ponto fraco é algum excesso na demonização da indústria farmacêutica, que não exerce um papel tão proeminente assim na exageração de outras panacéias biomédicas, como a genômica e a pesquisa com células-tronco.

A ‘big pharma’, afinal, só vende o que nos dispomos a comprar, como lembrou Ben Goldacre, médico e autor do popular blog britânico Bad Science (má ciência): ‘Somos todos participantes desse jogo. Fingir que a medicalização é algo imposto a nós -por malvadas e poderosas influências externas- só enaltece um sentimento perigoso de passividade’, ressaltou Goldacre."
Observatório da Imprensa
( Folha de S. Paulo
em 25/4/2006)